Anna Kauber e a lição dos pastores do século XXI: guardiões da memória, da biodiversidade e da liberdade

Anna Kauber revela como pastores e mulheres-pastoras preservam memória, biodiversidade e liberdade frente a clima, burocracia e despovoamento.

Anna Kauber e a lição dos pastores do século XXI: guardiões da memória, da biodiversidade e da liberdade

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Anna Kauber e a lição dos pastores do século XXI: guardiões da memória, da biodiversidade e da liberdade

Há um fio de luz que atravessa milênios e ainda ilumina paisagens, rotas e vidas: é o ofício do pastoreio. A cineasta, escritora, arquiteta e paisagista — e, como gosta de afirmar, feminista — Anna Kauber vem percorrendo a Itália para revelar esse universo vivo, onde o cuidado com o rebanho se entrelaça com a proteção da natureza, a memória comunitária e a construção de sentidos.

No coração dessa jornada estão as histórias de mulheres-pastoras e de comunidades do Matese, pequenas aldeias que guardam rituais milenares feitos de equilíbrio e interdependência. Em imagens e narrativas, Kauber ilumina um ofício que nasceu no Neolítico e que, mantendo a sua essência — cuidar do rebanho para que ele alimente as pessoas —, hoje encara desafios complexos: despovoamento das montanhas, crises climáticas, pressões do mercado global, excesso de burocracia e um reconhecimento social insuficiente.

O documentário Civiltà transumanti, no qual figuras como Alfonso De Lellis aparecem conduzindo o seu rebanho pelo tratturo em direção às áreas de pastagem, é um mapa vivo dessas travessias. As imagens mostram pastores como navegantes livres, guardiões de memórias territoriais e agentes essenciais na preservação da biodiversidade. O trabalho de Kauber destaca ainda como o conhecimento tradicional do pastoreio mantém paisagens agrícolas, corredores ecológicos e práticas de manejo que são hoje reconhecidas como fundamentais para segurança alimentar e sustentabilidade.

Em 2026, a atenção global voltou-se novamente para esse mundo com a proclamação do Ano Internacional dos Pastos e dos Pastores, iniciativa que nasceu na Mongólia e ganhou apoio de estados, universidades, organizações internacionais e centros de pesquisa — um reconhecimento das funções sociais e ambientais associadas ao pastoreio. O diretor-geral da FAO, QU Dongyu, convidou a comunidade global a ouvir e incluir as vozes daqueles que cuidam das terras: “Devemos ouvir e encorajar mulheres, jovens e organizações pastorais a participar dos processos decisórios que moldam suas terras e meios de subsistência”.

Kauber não se limita a documentar: ela investiga os contornos de gênero, território e política que atravessam o cotidiano pastoril. Em trabalhos anteriores, como o livro Le vie dei campi (2014) e os documentários que trataram de migrações e alimentação, já se via sua sensibilidade para identificar narrativas que ficam fora dos grandes holofotes. Agora, ao focalizar as mulheres-pastoras, a diretora reconstrói uma cena vital que, tantas vezes, é invisibilizada pelas lentes tradicionais.

Essa redescoberta do ofício tem consequências práticas: revitalizar castiçais e pastagens, criar governança responsável dos territórios e promover investimentos direcionados. São medidas que semeiam resiliência — para as pessoas, para os rebanhos e para os ecossistemas — e que desenham um horizonte límpido onde tradição e inovação se nutrem mutuamente.

Como curadora de histórias e de futuro, eu, Aurora Bellini, vejo no trabalho de Kauber uma lâmpada acesa sobre caminhos que podemos cultivar. Contar essas vidas é iluminar possibilidades reais de desenvolvimento rural, é tecer laços sociais e econômicos com respeito ao patrimônio natural. Em tempos de mudanças rápidas, os pastores — sobretudo as mulheres-pastoras — mostram que proteger a memória é também proteger a diversidade biológica e cultural de que todos dependemos.

O convite que fica, então, é duplo: reconhecer a ciência que brota da tradição e transformar esse reconhecimento em políticas públicas, investimentos e respeito cidadão. Só assim — com governança responsável e vozes acolhidas — o ofício do pastoreio continuará a brilhar, orientando-nos por trilhas antigas e renovadas, entre pastagens que alimentam corpos e histórias que alimentam o espírito coletivo.