Arara-canindé retorna à Tijuca após 200 anos: projeto Refauna quer repovoar a Floresta Atlântica
Arara-canindé retorna à Tijuca após 200 anos; o programa Refauna reintroduziu aves para restaurar a Floresta Atlântica e combater desmatamento e tráfico.
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Arara-canindé retorna à Tijuca após 200 anos: projeto Refauna quer repovoar a Floresta Atlântica
Depois de mais de dois séculos de silêncio nas copas cariocas, as arara-canindé — conhecidas historicamente como Ara gialloblù — voltaram a cruzar os céus do Parque Nacional da Tijuca, no coração do Rio de Janeiro. É uma notícia que ilumina um horizonte até então apagado: sinais de renascimento ecológico trazidos pelo programa Refauna, que trabalha para devolver à cidade parte de sua fauna original.
Até agora, quatro exemplares foram reintroduzidos e observados em liberdade; outros seis devem integrar o grupo em breve, dentro de um planejamento gradual que prevê, a longo prazo, a liberação de cerca de cinquenta aves. O último registro documentado da espécie na região remonta a 1818 — um hiato de mais de 200 anos que agora começa a ser preenchido com cuidado científico e sensibilidade comunitária.
"É como reunir novamente a orquestra da mata", descreveu à Espresso Italia Marcelo Rheingantz, diretor da iniciativa, ao comentar a importância simbólica e ecológica do retorno. A estratégia do Refauna tem sido prudente: os animais passaram por uma soltura controlada de 15 dias no início do ano e, em seguida, foram trazidos de volta para uma voliera para acompanhamento. A intenção é considerar uma soltura definitiva em setembro, quando a oferta natural de alimento costuma ser maior.
Essas aves vieram de resgates em cativeiro e, por isso, não dispõem ainda da musculatura necessária para cumprir jornadas diárias de até 10 quilômetros em busca de frutos e sementes — rotinas fundamentais para sua sobrevivência e para a função ecológica que desempenham. Além do condicionamento físico, há um período de aclimatação aos cheiros, sons e sabores do ambiente selvagem: um processo de re-aprendizagem que exige paciência e expertise.
Para a população local, a volta da arara-canindé é um sonho realizado. A ave é onipresente na imagética carioca — estampada em logotipos, roupas e lembranças —, embora houvesse desaparecido por conta de desmatamento intenso e do tráfico de animais no século XIX. Viviane Lasmar, diretora do parque, comentou à Espresso Italia que a reintrodução resgata um elo cultural além do ecológico: ver as araras vivos restaura uma parte da identidade da cidade.
O valor do projeto ultrapassa a beleza cenográfica. As arara-canindé são agentes-chave na Floresta Atlântica: seu bico afiado abre frutos e sementes que, carregadas pelo vento e pelo movimento das aves, são dispersos longe da planta-mãe, favorecendo a regeneração de árvores e a diversidade genética. Na Tijuca, um fragmento que perdeu cerca de 90% de sua cobertura original desde o período colonial, a presença desses grandes psitacídeos pode acelerar processos de restauração do bioma, ajudando a tecer uma mata mais resiliente e conectada.
Como curadora de progresso, vejo neste esforço uma semente que germina — uma ação concreta que ilumina novos caminhos para a convivência entre cidade e natureza. O retorno das araras é também uma lição prática: conservar é investir em redes vivas que beneficiam pessoas e ecossistemas. O Refauna exemplifica como ciência, comunidade e cuidado podem semear inovação e recuperar paisagens com um olhar de longo prazo.
O projeto segue monitorando os indivíduos reintroduzidos e preparando as próximas fases de soltura. A expectativa é que, com o fortalecimento das aves e o aumento da oferta alimentar, o grupo cresça e passe a exercer plenamente seu papel ecológico, iluminando os céus da Tijuca e inspirando outros esforços de restauração por todo o país.
Data do relato: 21 de abril de 2026. Reportagem por Aurora Bellini, Espresso Italia — voz de sociedade, sustentabilidade e inovação humana.