No Lago Trasimeno, casal ítalo-japonês luta para salvar a rara capra girgentana, relíquia de Agrigento
Casal ítalo-japonês no Lago Trasimeno luta para salvar a capra girgentana de Agrigento, protegendo um patrimônio genético e cultural.
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No Lago Trasimeno, casal ítalo-japonês luta para salvar a rara capra girgentana, relíquia de Agrigento
Do seu refúgio entre oliveiras e estrelas, às margens do Lago Trasimeno, o casal formado por Vasco Cajarelli e Keiko Shibamoto vem tecendo um projeto de preservação que ilumina um caminho essencial para a biodiversidade: salvar da extinção a capra girgentana, a histórica cabra de Agrigento.
No pequeno sítio próximo ao vilarejo medieval de Paciano, onde as noites se enchem de vaga-lumes e o céu parece uma tela facilmente fotografável, Vasco — aposentado com longa trajetória no diretório da CGIL — abriu as portas da sua fazenda para contar a história desta raça. Ao lado dele, Keiko, fotógrafa e artesã japonesa, auxilia a traduzir em imagens e cuidado prático a urgência da ação conservacionista.
A capra girgentana é conhecida por produzir um leite apreciado por sua nobreza: muito digerível e com características próximas ao leite materno. Ainda assim, apesar de um passado que a liga às antigas tradições do Mediterrâneo e de registros que a enaltecem em peças e relatos históricos, a raça enfrenta um declínio que ameaça sua sobrevivência.
Vasco descreve sua propriedade como um «refúgio do sonhador», construído com as próprias mãos — forno, piscina, pomar e um espaço que em breve funcionará como fattoria didattica (fazenda educativa), onde crianças e visitantes poderão conhecer de perto a história viva de uma espécie que guarda mitos e saberes. Ali, as cabras circulam entre os olivais, convivendo com outras espécies e com o horizonte límpido que define a paisagem umbria.
O elo entre a raça e a tradição antiga é contado com poeticidade: segundo a mitologia que acompanha a memória da capra girgentana, foi uma cabra chamada Amaltea que amamentou e protegeu Zeus quando recém-nascido, salvando-o do destino que lhe reservava Crono. Essa narrativa combina a força simbólica com a identidade material da raça — um fio que a comunidade de criadores e conservacionistas tenta reavivar.
A iniciativa do casal não é apenas afetiva: passa por práticas concretas de manejo, conservação genética e sensibilização pública. A ideia de criar uma fazenda educativa traz consigo a semente de um renascimento cultural — através da difusão do conhecimento sobre raças autóctones e da valorização de produtos lácteos locais, pode-se criar um circuito virtuoso de mercado e conservação.
Há também um apelo prático: preservar a capra girgentana significa manter um patrimônio genético adaptado ao clima e à paisagem mediterrânea, útil para sistemas agroecológicos e para a manutenção de mosaicos rurais. Esta é uma ação que semeia futuro, porque protege serviços ecossistêmicos, saberes tradicionais e sabores que definem territórios.
Além do cuidado com os animais, Vasco e Keiko trabalham para envolver escolas, visitantes e pequenos produtores, construindo narrativas visuais e educativas que aproximem as pessoas da importância de salvar uma espécie em risco. O trabalho deles revela novos caminhos para a convivência entre homem, animal e paisagem — uma luz que ilumina o que pode ser preservado e multiplicado.
Embora o desafio seja grande, a história que brota daquele casario perto do Lago Trasimeno mostra que iniciativas locais, guiadas por compromisso técnico e afeto, podem virar pontes para o futuro. Em vez de lamentar a perda, o projeto de Vasco e Keiko propõe cultivar valores: cuidado, conhecimento e ação concreta.
Espresso Italia acompanhou o movimento e registra que, para além do mito de Amaltea, existe um trabalho real, diário e paciente voltado a garantir que a capra girgentana continue a pastar nos campos, a oferecer seu leite singular e a inspirar histórias que atravessam gerações. É uma narrativa de resiliência que traduz esperança em ações mensuráveis — um pequeno farol de preservação em meio a um horizonte que merece ser cuidado.