Ciacola: a verdadeira história da gata que inspirou Gino Paoli

A comovente história de Ciacola, a gata siamesa que inspirou Gino Paoli e a canção 'La gatta'. Memórias, salvamento e legado musical.

Ciacola: a verdadeira história da gata que inspirou Gino Paoli

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Ciacola: a verdadeira história da gata que inspirou Gino Paoli

Por Aurora Bellini — Em um gesto de ternura que ilumina memórias e melodias, a vida de Gino Paoli cruzou caminhos com uma pequena gata siamesa que virou protagonista de uma de suas canções mais amadas. A história de Ciacola, contada aqui com o cuidado de quem preserva legados, revela detalhes íntimos do período em que o artista, ainda jovem e antes do estrelato, vivia em uma minúscula sótão no bairro de Boccadasse, em Gênova.

O refrão que abre a célebre composição — «C'era una volta una gatta che aveva una macchia nera sul muso» — ganha vida quando lembramos que a musa felina realmente existiu. Naquele espaço apertado de frente para o mar, La gatta acompanhava o músico e sua primeira esposa nas rotinas de criação: enquanto ele escrevia ou pintava, ela se aninhava por perto, às vezes sobre o corpo do autor. Paoli mesmo contou que acabou adquirindo uma marca de bronzeado clara no ventre, justamente onde a gata costumava repousar.

A proximidade entre homem e animal foi além do afeto. Conta-se que foi a persistência dos miados de Ciacola que salvou o casal de um vazamento de gás na estufa que ameaçava a sótão de Boccadasse, despertando o artista que se encontrava absorto no trabalho. Essa cena — em que a vida é preservada por um pequeno farol de alerta — parece ilustrar bem o hilo sensível entre seres e a capacidade de uns iluminarem o caminho dos outros.

Quando Gino Paoli alcançou o sucesso e se mudou para um apartamento maior em Roma, o destino de Ciacola foi trágico: a gata veio a falecer pouco tempo depois, vítima de uma obstrução intestinal relacionada a um bolo de pelos. O artista revisitava essa perda com nostalgia nas estrofes finais da canção — "Agora não moro mais lá, tudo mudou..." — um retrato de renúncias e transformações que acompanham o crescimento humano e artístico.

A canção, lançada em formato de 45 rpm com a faixa "La gatta/Io vivo nella luna", atravessou gerações: artistas como Little Tony, Gianni Morandi e Mina regravaram o tema, perpetuando a imagem da gata na cultura popular. Em 2012, Paoli levou a história adiante ao criar um livro ilustrado infantil inspirado em La gatta, gesto de quem deseja semear afeto nas novas gerações.

Entre episódios curiosos, o próprio compositor narrou uma aventura em Hong Kong: num impulso etílico, tatuou um gato no braço e sofreu uma reação respiratória provocada pela anilina usada nos estúdios de tatuagem da época. Em entrevistas concedidas a esta redação da Espresso Italia, Paoli afirmou seu amor pelos animais — "exceto pelos macacos, que se parecem demais com os homens" — com o humor e a lucidez que marcaram sua personalidade.

Hoje, ao recordar Ciacola, reverberamos não só uma canção dos anos 1960, mas também a forma como laços simples iluminam trajetórias, oferecem proteção e deixam marcas invisíveis — e, por vezes, um leve clarão no bronzeado de quem escolhe amar. Que este relato sirva como pequeno farol sobre o poder transformador dos afetos, humanos e não humanos, nas nossas histórias coletivas.