Lombardia: um bovino ou suíno a cada dois habitantes — os impactos da pecuária intensiva no ar e no solo

Lombardia concentra 5,24 milhões de bovinos e suínos: um animal a cada dois habitantes. Impactos da pecuária intensiva no ar, solo e políticas locais.

Lombardia: um bovino ou suíno a cada dois habitantes — os impactos da pecuária intensiva no ar e no solo

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GERADO EM: Abr 10, 2026 às 02:27

Lombardia: um bovino ou suíno a cada dois habitantes — os impactos da pecuária intensiva no ar e no solo

A Lombardia, maior região pecuária da Itália, enfrenta a degradação ambiental decorrente da produção animal. Um relatório destaca que a região abriga mais de 5 milhões de animais, resultando em uma densidade de rebanho preocupante, especialmente nas províncias de Mantova, Cremona e Brescia. Emissões de CO2 aumentaram 2,5% entre 2014 e 2021, e mais da metade dos municípios excedem os limites de nitrogênio, impactando a qualidade do ar e contribuindo para problemas de smog. O uso excessivo de rações importadas e a pressão sobre pequenas propriedades agrícolas também são preocupantes. O relatório sugere políticas públicas que priorizem a transição agroecológica e recuperação ambiental, apresentando uma oportunidade de inovação para a região.

Fique por dentro de todos os pontos deste artigo lendo a versão completa a seguir.

Por Aurora Bellini — Espresso Italia. A Lombardia ilumina um paradoxo: é a maior região pecuária da Itália e, ao mesmo tempo, um dos territórios que mais sofre com a degradação ambiental causada pela própria produção animal. Um mapa de concentração que revela tanto prosperidade econômica quanto sinais claros de saturação ecológica.

O relatório "Allevamenti intensivi in Lombardia, anatomia di un eccesso", elaborado pelo centro de pesquisas Està a pedido de Legambiente, Essere Animali e Terra! no âmbito do projeto Agrieco 2.0 com apoio da Fondazione Cariplo, mostra números que chamam atenção: a região possui 1.515.679 bovinos e 3.730.683 suínos, totalizando 5.246.362 animais — praticamente um animal para cada dois habitantes.

Essa densidade não é distribuída ao acaso: as empresas estão concentradas, sobretudo, nas províncias de Mantova, Cremona e Brescia. Para efeitos comparativos, a presença de bovinos na Lombardia é cerca de quatro vezes a média nacional, enquanto a de suínos chega a ser seis vezes mais densa. Esse excesso de rebanho gera um volume de efluentes capaz de superar a capacidade do solo de absorver nutrientes — sobretudo nitrogênio — transformando o antigo ciclo virtuoso do estrume em fonte de risco ambiental.

O uso massivo de esterco, que historicamente foi prática de adubação natural, hoje corre o risco de comprometer a saúde do solo e a qualidade do ar. O relatório aponta que, entre 2014 e 2021, as emissões em equivalente de CO2 provenientes dos sistemas de criação na região cresceram cerca de 2,5%. Além disso, mais da metade dos municípios da Pianura Padana — exatamente 402 — registram um carregamento de nitrogênio proveniente de dejetos zootécnicos acima das necessidades das culturas.

Esse excedente tem efeitos diretos sobre a qualidade do ar: a liberação de enormes quantidades de amônia contribui para a formação de material particulado fino, ao reagir com óxidos de nitrogênio e enxofre, e alimenta episódios de smog que afetam a saúde coletiva. Há, ainda, o risco de sanções europeias relacionadas à violação da Diretiva Nitratos, se as práticas não forem revistas.

Outro dado que acende um foco crítico é a dependência de rações importadas: a região consome cereais em volume — cifrado no relatório em centenas de milhões de toneladas — que poderiam, em teoria, alimentar bilhões de pessoas, se destinados diretamente ao consumo humano. Esse é um convite a repensar cadeias alimentares, fluxos comerciais e soberania alimentar.

Por fim, o estudo traça a relação entre concentração produtiva e o fechamento de pequenas explorações: a pecuária intensiva favorece economias de escala que pressionam financeiramente os agricultores familiares, deslocando impactos ambientais para o território e corroendo o tecido rural. É um ciclo que exige políticas públicas claras, incentivos à transição agroecológica e planos de mitigação que possam restaurar solos, ar e comunidades.

Como curadora de progresso, vejo nesta constelação de problemas uma oportunidade para iluminar novos caminhos: políticas que reduzam a dependência de rações importadas, sistemas de manejo que valorizem a recuperação do solo, incentivos para modelos extensivos e circulares, e fiscalização que evite externalidades ambientais. A Lombardia pode semear inovação e testar modelos replicáveis à Europa, transformando um excesso em aprendizagem e renascimento cultural para o campo.

Espresso Italia seguirá acompanhando o desenrolar das recomendações do relatório e as respostas das instituições regionais e nacionais, para que a luz do conhecimento se converta em ações concretas em direção a um horizonte mais limpo e justo.