Maurizio De Giovanni: «Vivo com quatro gatos e sou o seu maggiordomo»
Maurizio De Giovanni vive com quatro gatos, descreve-se como seu maggiordomo e explica por que os felinos raramente entram em seus livros.
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Maurizio De Giovanni: «Vivo com quatro gatos e sou o seu maggiordomo»
Por Aurora Bellini — Em um gesto de luz cotidiana, o escritor Maurizio De Giovanni confessa o prazer de partilhar a casa com quatro felinos e a expectativa pelo quinto. Em tom bem-humorado e afetuoso, ele define o próprio papel doméstico: “sou o maggiordomo deles”. Para quem cultiva histórias que tocam a alma e o urbano, esse convívio ilumina hábitos e pequenas regras do lar.
Quando lhe perguntam por que os gatos não costumam aparecer em suas obras, ele responde com uma observação aguda: o felino resiste a ser catalogado. “O gato não pode ser contado, é sempre diferente, difícil de tipificar. O cão, ao contrário, é mais narrativo, sobretudo quando o apresenta como um grandalhão”. É aí que entra Boris, o bovaro do bernese que acompanha o inspetor Pardo em seus livros — uma criatura de força bruta, quase indomável, fruto de encontros pelas ruas e de um olhar atento do autor sobre as presenças caninas na cidade.
No entanto, na esfera privada, o escritor prefere a elegância independente dos felinos. A escala atual do clã felino começa por Elvis, um Ragdoll de olhos azuis, apelidado de “boneca de pano” por sua entrega quando está no colo. Há também dois siberianos — Kvara e Lillo. A fêmea recebeu o nome com kappa em homenagem a Khvicha Kvaratskhelia, jogador georgiano que brilhou no Napoli antes de seguir para o PSG, um gesto leve que revela a cumplicidade entre cultura popular e afeto doméstico. E ainda Diva, descrita como uma certosina, curvilínea e faminta: pesa cerca de sete quilos, tanto quanto o Ragdoll.
Em breve, completará a família um Maine Coon, quando terminar o período de desmame. A preferência por raças de criação não esconde uma sensibilidade para os animais de rua: De Giovanni admite que, se algum gatinho aparecesse à sua porta, o adotaria sem hesitar. Em Nápoles, cidade conhecida por seus muitos animais vagantes, ele confessa nunca ter recebido propostas ou cruzado com um filhote à espera de um lar — mas o desejo de acolher permanece vivo.
Com humor e um certo brilho crítico, ele observa a superioridade felina: “Eles sabem que lhes somos úteis para abrir latinhas com o polegar, caso contrário já nos teriam eliminado”. E acrescenta, com aquela pitada de ironia humana: “Quanto maiores, mais gentis. Não como os homens”.
Sobre a literatura e a autobiografia: De Giovanni recusa a autoficção como hábito dominante. Prefere colher histórias alheias — são essas narrativas que, segundo ele, carregam maior interesse. A própria vida doméstica, embora rica em presença felina, não se transforma automaticamente em matéria-prima. Há um respeito pela diferença entre viver e escrever: uma casa pode ser um santuário íntimo, um espaço onde se semeiam afetos, sem que cada gesto seja transposto para a página.
No dizer final, entre a leveza do riso e a clareza de quem ama sem melodrama, o autor revela um princípio simples e luminoso: não concebe uma casa sem animais domésticos. E, enquanto aguarda o novo Maine Coon, continua a exercer, com devoção e humor elegante, o ofício de ser o mago doméstico dessas criaturas — uma presença que ilumina os gestos mais corriqueiros e semeia afeto pelo lar.