Comissão parlamentar descarta existência da 'trata das brancas' nos casos Orlandi e Gregori

Comissão parlamentar conclui que a 'trata das brancas' não explica os desaparecimentos de Emanuela Orlandi e Mirella Gregori.

Comissão parlamentar descarta existência da 'trata das brancas' nos casos Orlandi e Gregori

RESUMO ✦

Sem tempo? A Lili IA resume para você

Gerando resumo com IA...

Comissão parlamentar descarta existência da 'trata das brancas' nos casos Orlandi e Gregori

Por Giulliano Martini — A comissão parlamentar de inquérito que reavaliou os desaparecimentos de Emanuela Orlandi e Mirella Gregori concluiu, por unanimidade, que a chamada "trata das brancas" nunca existiu como pista válida para explicar os dois casos de 1983. O relatório final, elaborado por um grupo de trabalho que contou com o ex-magistrado Guido Salvini, desmonta a hipótese de uma rede criminosa organizada responsável pelas ausências.

O documento, intitulado "Emanuela Orlandi, Mirella Gregori e la pista delle ragazze scomparse", foi apresentado e submetido a votação hoje. A comissão presidida por Andrea De Priamo tinha como objetivo verificar se havia elementos objetivos capazes de sustentar a existência de um tráfico sistemático de meninas em Roma entre 1982 e 1983, período em que proliferaram reportagens sobre adolescentes desaparecidas.

Após cruzamento de fontes e análise dos relatórios policiais da época, a comissão concluiu que o fenômeno noticiado como uma suposta onda de rapimentos era, em grande parte, fruto de uma percepção amplificada pela mídia e por relatórios institucionais. Segundo os dados citados no relatório e confirmados por fonte ligada à investigação, foram identificadas 177 mulheres para as quais existia apenas uma denúncia de afastamento voluntário. Em nenhum desses casos emergiram indícios de sequestro ou homicídio coordenados que pudessem ser vinculados aos desaparecimentos de Emanuela e Mirella.

O relatório afirma expressamente que "o fenómeno das presuntas jovens rapidas a Roma nos primeiros anos 80 não é, na realidade, uma realidade consolidada" e que não existem elementos comuns que sustentem a hipótese de uma regia ou matriz criminosa partilhada entre os casos. A conclusão aponta para um redesenho interpretativo: o alarmismo mediático dos anos 80 teria criado uma narrativa coletiva que não se confirma perante a verificação factual.

É relevante lembrar a origem do termo em Itália: a expressão "tratta delle bianche" foi popularizada por uma reportagem da revista Panorama, publicada em 1º de agosto de 1983, sob o título "Emanuela e le altre". Ainda que essa matéria tenha alimentado o debate público, a comissão esclareceu que sua investigação partiu, de fato, de um estudo da Questura de Roma e não exclusivamente da imprensa.

O posicionamento unânime da comissão redefine o enquadramento investigativo dos casos Orlandi e Gregori: a pista de um tráfico de menores como explicação central para os desaparecimentos fica "definitivamente ridimensionata" — expressão utilizada no relatório — por falta de provas que apontem para um contexto criminoso organizado em comum. O documento deixa aberto o espaço para outras linhas de investigação, mas retira da circulação a hipótese da existência de uma rede de sequestros em série vinculada aos dois casos.

Ao fim da sessão, a comissão reforçou a necessidade de preservar a precisão dos registros históricos e evitar reconstruções que não resistam ao escrutínio dos fatos: a realidade traduzida pelo relatório é clara e baseada no cruzamento de fontes oficiais e documentação policial. A recomendação prática é que futuras apurações priorizem evidência documental e pericial em detrimento de narrativas midiáticas evocativas.