Déficit de um bilhão por dia: UE aponta desequilíbrio comercial frente à China e Von der Leyen avisa que está pronta a reagir
UE registra déficit de €360 bi em 2025 com a China; Von der Leyen defende 'de-risking' e medidas para proteger indústria e cadeias críticas.
RESUMO ✦
Sem tempo? A Lili IA resume para você
Déficit de um bilhão por dia: UE aponta desequilíbrio comercial frente à China e Von der Leyen avisa que está pronta a reagir
Por Marco Severini — A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, lançou em Paris um alerta deliberado: a União Europeia está preparada para agir de forma contundente para proteger suas empresas e restabelecer regras de jogo iguais no comércio com a China. A mensagem, proferida no encontro anual dos empresários franceses, sinaliza um movimento decisivo no tabuleiro diplomático e econômico de longo prazo.
Von der Leyen deixou claro que Bruxelas não pretende um decoupling abrupto, mas sim um processo de de-risking: reduzir vulnerabilidades estratégicas sem romper os elos comerciais com um parceiro que continua crucial para muitos setores. Ainda assim, admitiu-se que a linha entre prudência e confronto direto está a ficar cada vez mais ténue.
Os números embasam a mudança de postura. Em 2025, a UE exportou para a China cerca de 200 mil milhões de euros, enquanto importou 559 mil milhões, acumulando um déficit comercial recorde de aproximadamente 360 mil milhões. O início de 2026 não trouxe alívio: nos primeiros três meses já se registaram 98 mil milhões de euros de déficit — um patamar não visto desde 2022. Traduzido ao dia, é uma perda próxima de um bilhão de euros por dia no balanço comercial.
Mais que uma questão de balança comercial, trata-se de segurança económica: a indústria chinesa, nutrida por subsídios estatais e por capacidade de produção massiva, está a pressionar concorrentes europeus com produtos de baixo custo. Sobrepondo-se a isto, Pequim controla em termos práticos muitas cadeias de abastecimento críticas e tem vindo a restringir exportações de tecnologias e matérias-primas.
Um ponto sensível é a dependência quase total da Europa para certas terras raras pesadas: em alguns casos, a UE depende 100% da China para esses insumos. Esse tipo de vulnerabilidade amplia um risco estratégico real — o controle de chips e minerais pode facilmente transformar-se numa alavanca de coerção política.
Na arena interna europeia, a resposta política está fragmentada, revelando uma tectônica de poder: a França defende uma linha de ação firme, exigindo a ativação rápida do escudo comercial europeu e do chamado "trade bazooka", a arma anti-coerção destinada a punir práticas discriminatórias e salvaguardar setores industriais essenciais. A Alemanha, por contraste, mantém uma postura mais cautelosa; suas grandes empresas estão profundamente enraizadas no mercado chinês e Berlim teme retaliações que possam atingir fábricas e empregos.
O quebra-cabeça político não se limita a Paris versus Berlim. Em 2026, Itália e Espanha alinharam-se com a França, juntamente com Países Baixos e Lituânia, reclamando medidas mais rápidas e incisivas da UE. O receio comum é a invasão contínua de produtos de baixo custo e o risco de desindustrialização em cadeias que sustentam emprego e soberania tecnológica.
Do ponto de vista estratégico, a Europa enfrenta uma escolha entre manter uma abertura comercial que alimenta crescimento e evitar que as assimetrias estruturais se transformem num instrumento de dependência estratégica. É um jogo de xadrez em que cada movimento — tarifário, regulatório ou diplomático — deve ser pensado como parte de um plano maior para preservar a autonomia industrial sem isolar o continente.
O próximo capítulo depende de negociações internas na UE, de contramedidas regulatórias e, sobretudo, da capacidade de construir cadeias alternativas e reforçar investimentos em tecnologias críticas. As decisões que Bruxelas tomar agora terão impacto duradouro na configuração dos alicerces da diplomacia econômica europeia — um redesenho de fronteiras invisíveis que definirá quem terá a iniciativa no tabuleiro global.

