Abelardo de la Espriella é eleito presidente da Colômbia em meio a atentados e ameaças à imprensa

Abelardo de la Espriella vence a eleição na Colômbia em clima de violência, ameaças à imprensa e pressão dos cartéis; entenda os riscos à democracia.

Abelardo de la Espriella é eleito presidente da Colômbia em meio a atentados e ameaças à imprensa

RESUMO ✦

Sem tempo? A Lili IA resume para você

Gerando resumo com IA...

Abelardo de la Espriella é eleito presidente da Colômbia em meio a atentados e ameaças à imprensa

Em uma virada que marca uma clara inversão de rota política, Abelardo de la Espriella, candidato da direita populista e alinhado ao estilo pró-Trump, saiu vitorioso no segundo turno das eleições presidenciais da Colômbia, derrotando o candidato de esquerda Iván Cepeda na votação de 21 de junho. Embora haja indicações de que um recontagem de votos é provável, o resultado sinaliza uma mudança significativa após a administração de esquerda liderada por Gustavo Petro.

O cenário que envolveu a eleição foi de extrema tensão: o país esteve praticamente militarizado para garantir a votação, com presença reforçada das Forças Armadas e medidas de segurança excepcionais em várias regiões. Ao mesmo tempo, registrou-se uma escalada de ataques e ameaças à imprensa, além de intimidações atribuídas aos cartéis e grupos criminosos que buscam influenciar os rumos locais.

Para compreender as implicações dessa vitória e o papel que as organizações criminosas poderão exercer sobre a democracia colombiana, conversamos com o professor Vincenzo Musacchio, especialista em estratégias de combate à criminalidade organizada e associado ao Rutgers Institute on Anti-Corruption Studies (RIACS), da Rutgers University (Newark, EUA).

Segundo Musacchio, a lógica dos cartéis não é ideológica: "O objetivo dos cartéis não é 'direita' ou 'esquerda' — é utilitarista. Eles procuram condições que garantam controle territorial, continuidade nas rotas e impunidade". A análise aponta para uma transformação das organizações criminosas: de simples redes de tráfico a estruturas híbridas capazes de exercer uma espécie de "soberania paralela" — com atuação econômica, política e social simultânea.

"Em muitas periferias, o Estado já perdeu o monopólio efetivo da legalidade", afirma Musacchio. "A presença do crime organizado substitui, de fato, os alicerces da lei, impondo regras informais e um controle social que inclui intimidação e sanções". Essa mutação qualitativa explica por que os grupos hoje se envolvem não apenas em financiar atores políticos, mas em modelar equilíbrios locais inteiros.

Uma questão que preocupa é o ataque sistemático à imprensa. Musacchio relaciona esse fenômeno ao básico da guerra informativa: "A transparência é o pior inimigo do crime organizado". Ao silenciar jornalistas, cartéis tentam controlar narrativas, impedir denúncias e neutralizar mecanismos de vigilância social que poderiam expor suas operações e conexões.

O resultado é uma democracia sob tensão: de um lado, o vencedor institucionalmente legitimado; do outro, a sombra de atores que operam fora do quadro formal, prontos para negociar privilégios e impunidade. Independentemente do recontagem, a administração que assumir terá pela frente a tarefa de reconstruir os alicerces da lei nas periferias, derrubar barreiras burocráticas que impedem respostas rápidas e erguer uma ponte entre o governo central e as comunidades mais vulneráveis.

Como correspondente focado na intersecção entre decisões de Roma — e, por extensão, das capitais democráticas — e a vida das pessoas, é possível perceber que a eleição colombiana traz lições para além de Bogotá: a fragilidade institucional frente ao crime organizado compromete a cidadania e exige políticas integradas de segurança, transparência e desenvolvimento. Se os narcos seguirão um caminho de cooptação ou confronto dependerá, em grande medida, da capacidade do novo governo em reconstruir confiança institucional e em restabelecer o monopólio da legalidade.

Em termos práticos, especialistas como Musacchio ressaltam medidas prioritárias: proteger jornalistas e observadores eleitorais, reforçar a capacidade investigativa do Estado, cortar circuitos financeiros ilícitos e investir em políticas sociais que retirem terreno do crime. Sem essas intervenções, alerta o professor, as estruturas híbridas dos grupos criminosos permanecerão como uma ameaça permanente à governabilidade.

O país está em um momento decisivo: a escolha nas urnas é apenas a primeira laje de uma obra complexa. Agora cabe ao novo presidente e às instituições iniciar a reconstrução dos alicerces da lei e estreitar a ponte entre o Estado e as periferias, para que a democracia não seja simplesmente o peso da caneta, mas a soma cotidiana de garantias e direitos para todos.