Brancher revela: jantares de Arcore reuniram Bossi e Berlusconi após o 'Ribaltone'

Brancher conta como as jantares de Arcore reuniram Bossi e Berlusconi após o 'Ribaltone' e rememora papéis de Tremonti, Calderoli e outros líderes.

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Brancher revela: jantares de Arcore reuniram Bossi e Berlusconi após o 'Ribaltone'

Por Giuseppe Borgo — Aldo Brancher, 82 anos, ex-sottosegretario às Reformas na XIV legislatura do governo de Silvio Berlusconi, descreve, com a precisão de quem foi testemunha ativa, os bastidores da reconciliação entre o fundador da Lega, Umberto Bossi, e o líder do centro-direita. Em viagem de carro de Bardolino a Pontida, onde tinha compromisso para participar do funeral de Bossi ao lado de Fedele Confalonieri e Marcello Dell'Utri, Brancher traça uma espécie de mapa das negociações que reergueram uma aliança política fragilizada.

Brancher remete ao episódio do chamado Ribaltone, o rompimento que pôs fim ao primeiro governo do Cavaliere e deixou marcas profundas na relação entre as duas figuras. Foi a pedido de Berlusconi, conta Brancher, que lhe foi confiada a tarefa de reconstruir a confiança do Senatur. "Bossi era desconfiado. No início foi difícil. Berlusconi me disse: ‘Vai avanti tu... Dimmi che cosa devo fare’" — relata Brancher, descrevendo um trabalho paciente de aproximação.

O elemento prático dessa reconciliação, segundo Brancher, foi algo que, à primeira vista, parece simples, mas revelou-se eficaz: as jantares de Arcore de segunda-feira. "Eu inventei as cenas de Arcore de segunda-feira. Berlusconi me disse de trabalhar nisso. Nesses encontros, os dois ficavam horas conversando, não apenas sobre política" — afirmou. Essas reuniões foram, na avaliação dele, o alicerce que permitiu derrubar barreiras burocráticas e restaurar um entendimento político.

Brancher recorda ainda da participação decisiva de figuras como Giulio Tremonti e Roberto Calderoli no processo. A memória política guarda também episódios concretos de cedência e acordo: em 2007, quando Berlusconi queria que Alfredo Meocci fosse candidato a prefeito de Verona, coube a negociações pessoais — em que participaram, além de Bossi, nomes como Pierferdinando Casini — convencer Meocci a recuar, abrindo espaço para Flavio Tosi.

Sobre a figura pública de Bossi, Brancher traça dois tempos. O Bossi inicial, lembra, era "extremamente vulcânico", líder capaz de mobilizar com slogans fortes como o célebre "Roma ladrona", usado não para ofender, segundo ele, mas para garantir que sua mensagem fosse ouvida. O Bossi final, descreve Brancher, era mais triste: "A última vez que o vi foi em 2 de março, estava lúcido, não esperava o agravamento. Um par de meses antes ele me chamou e, com dificuldade para exprimir sentimentos, disse: 'Aldo ti voglio bene, ciao'".

Ao encerrar suas memórias, Brancher manifesta preocupação com a preservação da memória política de Bossi. "Ele deveria ser mais lembrado, até pelos seus apoiadores. Foi um grande político. Espero que possamos fazer algo para transmitir sua memória — falarei com Giorgetti". Nessa ponte entre passado e futuro, Brancher atua como um construtor: reconstituiu um diálogo político que pesou nas estruturas do poder e hoje pede que o legado seja transmitido com responsabilidade pública.

Em tempos de fragmentação partidária, a narrativa de Brancher sobre as jantares de Arcore é um lembrete de que, por trás dos atos e dos pareceres oficiais, há sempre iniciativas humanas — pequenas reuniões, conversas informais — que fundam ou reconstroem os alicerces da coalizão. E que, apesar do peso da caneta e dos palcos eleitorais, muitas decisões nascem à mesa, entre histórias pessoais e combinações estratégicas.