Mattarella, 'Ora e sempre Resistenza': quando o antifascismo vira cortina sobre as contradições sociais
Crítica ao discurso de Mattarella: 'Ora e sempre Resistenza' e o risco do antifascismo virar cortina para as contradições do capitalismo.
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Mattarella, 'Ora e sempre Resistenza': quando o antifascismo vira cortina sobre as contradições sociais
Em 25 de abril, ao pronunciar o lema "Ora e sempre Resistenza", o Presidente da República, Sergio Mattarella, reafirmou a centralidade simbólica da Resistência na memória cívica italiana. A frase tem força histórica e mobiliza sentimentos legítimos de defesa da democracia. Ainda assim, é preciso traduzir essa evocação em análise crítica: contra o que, hoje, deve-se erguer a resistência?
Quem propõe uma resistência contemporânea sem apontar os alvos reais corre o risco de construir uma fachada de memória que pouco altera o primado das estruturas que moldam a vida cotidiana dos cidadãos. Se aplicarmos o sentido de resistência às grandes contradições que definem nosso tempo — nomeadamente o capitalismo planetário e o seu correlato, o imperialismo sans frontières — a invocação de Mattarella ganha nova urgência. Mas o Presidente, no seu discurso, limitou-se a celebrar a luta contra o fascismo histórico: um inimigo, como salientou certa vez Pier Paolo Pasolini, que às vezes aparece reduzido a espectro — o que ele chamou de "antifascismo arqueológico".
O problema central que emerge dessa celebração restrita é político e social. Transformada em ritual, a luta contra um fascismo morto e sepultado há mais de sete décadas pode desviar o olhar público das pressões econômicas e geopolíticas que hoje produzem exclusão, precariedade e erosão dos direitos. Sob esse prisma, o antifascismo sem fascismo pode funcionar como uma legitimidade simbólica para a ordem vigente: a sociedade de mercado passa a ser tratada como o único baluarte da democracia, protegido contra um inimigo que, para muitos, já não ameaça de maneira direta.
Essa inversão — em que a memória da luta histórica serve para blindar as estruturas de poder atuais — é, em si, um sinal de que precisamos reenquadrar o vocabulário da resistência. Não se trata de minimizar a importância da memória antifascista: trata-se de ampliar sua aplicação. A verdadeira resistência hoje exige que derrubemos barreiras burocráticas, que reconstruamos os alicerces da proteção social, que questionemos o peso da caneta nas decisões que subordinam vidas ao mercado e que erijamos pontes entre as várias formas de cidadania e proteção dos direitos.
Como repórter e observador da intersecção entre decisões de Roma e o dia a dia das pessoas, insisto: celebrar a Resistência é obrigação cívica. Mas essa celebração deve ser uma ferramenta para enfrentar as contradições reais do presente — o desemprego estrutural, a insegurança social, as assimetrias de poder — e não um verniz que oculta a manutenção de uma sociedade classista. Só assim a memória histórica cumpre sua função: não como um adorno, mas como alicerce para novas lutas.
Em linguagem de construção cidadã, precisamos que o lema "Ora e sempre Resistenza" sirva de cimento para unir os cacos de uma democracia em obra — e não de tela que tape as rachaduras de uma arquitetura social que exige reparos urgentes.