Meloni usa Berlinguer como 'folha de fico': a manobra simbólica que tenta reconstruir a imagem da direita
Meloni usa Berlinguer em gesto simbólico; crítica à seletiva reconciliação política e ao contraste entre discurso e prática governamental.
RESUMO ✦
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Meloni usa Berlinguer como 'folha de fico': a manobra simbólica que tenta reconstruir a imagem da direita
No dia em que se comemora a morte de Enrico Berlinguer, a primeira-ministra Giorgia Meloni optou por um tom de conciliação e pediu unidade. Em sua mensagem, evoca palavras como respeito, confronto e comunidade nacional, e recorda o gesto de Giorgio Almirante ao prestar homenagem a um adversário político. O efeito público, porém, tem mais a ver com marketing simbólico do que com uma mudança palpável na prática governamental.
Na leitura crítica que proponho, essa escolha retórica funciona como uma espécie de folha de fico: uma cobertura conveniente que visa resguardar a imagem da direita ao mesmo tempo em que conserva intocados seus alicerces políticos. Chamar ao diálogo é sempre correto; o problema surge quando esse apelo convive, na vida real, com uma estratégia de polarização que marcou anos de atuação política, quando opositores — sindicatos, movimentos sociais, ONGs e até magistrados — foram frequentemente tratados como obstáculos a serem deslegitimados e não como interlocutores a serem ouvidos.
É justamente nessa contradição entre o discurso e a prática que se constrói a crítica: quando se afirma que não se deve "demonizar o adversário", vem à tona a questão de onde estava esse princípio em momentos em que o dissenso foi empurrado para a margem do debate público. A retórica inflamada e a lógica do nós-contra-eles têm sido uma marca difícil de conciliar com a imagem restauradora que hoje se tenta projetar.
Além disso, o uso de Berlinguer como argumento de legitimação passa pelo núcleo simbólico do gesto: não se trata só de lembrar o líder comunista, mas de ancorar, por reflexo, a respetabilidade de uma tradição política que olha para atrás. O apelo a Almirante — e à sua cortesia histórica para com um adversário — transforma o dominante em civilizado, reduzindo a figura de Berlinguer a um adorno na narrativa da "respeitabilidade pós-fascista".
Para quem pensa a política como construção de direitos — como eu escrevo sob a perspectiva de quem observa a intersecção entre decisões de Roma e a vida cotidiana dos cidadãos — é preciso olhar para os impactos concretos. Berlinguer defendia participação popular, ética pública e a defesa do trabalho: valores que, na avaliação crítica, encontram poucas continuidades nas políticas recentes que comprimiram salários reais, fragilizaram representações sociais e favoreceram interesses econômicos mais fortes.
Quando a chefe do governo afirma que "ideias fortes não temem o confronto", a frase é aceitável e até inspiradora. Mas a pedra de toque do compromisso democrático é que esse princípio seja exercido além dos posts comemorativos: no trato diário com o dissenso, na escuta das críticas e na disposição para submeter políticas a um debate democrático robusto.
Sim, Berlinguer merecia respeito. Mas, como construtores da cidadania, devemos perguntar se ele merece apenas uma citação conveniente ou algo mais profundo — um exame de coerência entre palavras e atos. A arquitetura da memória pública não deve servir para mascarar decisões; deve servir para fortalecer os alicerces da nossa comunidade política.