De Borghi a Picierno: a lenta diáspora dos riformistas dentro do PD expõe racha sobre Ucrânia e rearmamento

Saída de Pina Picierno do PD revela fissura riformista sobre Ucrânia e rearmamento; o racha entre Schlein e a delegação europeia expõe escolhas estratégicas.

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De Borghi a Picierno: a lenta diáspora dos riformistas dentro do PD expõe racha sobre Ucrânia e rearmamento

Por Giuseppe Borgo — A saída de Pina Picierno do Partito Democratico (PD) confirma um movimento anunciado, mas não menos significativo: a contínua erosão da corrente riformista dentro do partido, um lento desmonte das estruturas políticas que nasceram no Lingotto. A secretária Elly Schlein diz estar "muito desapontada" com a partida — "como sempre quando alguém vai embora", acrescentou — mas o que está em jogo ultrapassa o desconforto pessoal e alcança os alicerces da estratégia do PD para a política externa e para as próximas eleições.

Figuras como o senador Filippo Sensi descrevem a crise com termos contidos: não surpresa, mas amargura. Picierno, hoje vice-presidente do Parlamento Europeu, já vinha travando embates públicos com a direção do partido, sobretudo sobre a defesa da Ucrânia e o projeto de rearmamento europeu. Dois momentos ilustram esse atrito: a votação de maio de 2023 sobre o plano Asap — que previa o uso de uma parte dos fundos do PNRR para produção de munições para Kiev — e a resolução da primavera de 2025 sobre o plano de armamento promovido pela presidente Von der Leyen. Em ambos os episódios, Picierno e uma fração significativa da delegação democrata em Bruxelas posicionaram-se em desacordo com a linha emanada do Nazareno, provocando rupturas formais e simbólicas.

Em 2023, menos de dois meses após a eleição de Schlein como secretária, a discordância tornou-se pública quando a delegação democrata, liderada por Picierno, votou contra a orientação da líder. O ciclo recomeçou em 2025, com uma delegação renovada, quando dez deputados democratas votaram a favor da resolução europeia sobre rearmamento, contrapondo-se à abstinência sugerida pela direção nacional.

Ao anunciar a saída, Picierno foi direta: "A casa dos riformistas não existe mais. Não se pode ser ambíguo diante do fascismo putiniano e dos extremismos. É hora de trabalhar em algo novo, para vencer as eleições." Essas palavras ecoam análises anteriores de quem já abandonou o PD — como Elisabetta Gualmini, que falou em "mutação genética do partido" ao migrar para Azione. O argumento central é claro: houve um desvio gradual que alterou a identidade que muitos associados construíram desde os debates do Lingotto.

Além da política externa, outro nó é a aliança com o Movimento 5 Stelle. Para os riformistas, essa aproximação incorpora ambiguidades que prejudicam a clareza programática do PD e seu posicionamento no cenário europeu. Schlein, contudo, mantém o discurso de um partido plural e inclusivo — uma pluralidade que, segundo ela, exige uma linha clara e coerente, a mesma que garantiu sua vitória no último congresso.

O episódio da saída de Picierno funciona como um barômetro: mede a intensidade das fissuras internas e antecipa disputas futuras sobre o peso das escolhas estratégicas. A cada saída, a arquitetura do partido perde um pedaço da ponte que ligava as sensibilidades riformistas ao projeto maior do PD. Resta saber se a direção será capaz de recompor esses alicerces ou se o peso da caneta, nas decisões futuras, aprofundará a diáspora.

Para a cidadania e para os eleitorados com raízes no liberalismo social europeu, a questão é prática: quem representa, no PD, a defesa clara da liberdade europeia e a solidariedade a Kiev? E que impacto terá isso na capacidade do partido de apresentar um projeto competitivo para as próximas eleições nacionais?

Enquanto isso, a cena política italiana segue em mutação. A saída de Pina Picierno não é apenas um ato individual: é um sinal de que os riformistas, de Borghi a Picierno, seguem buscando uma nova casa política ou uma nova forma de reconstruir seus territórios. E a construção desses direitos e escolhas políticas continua em obras, diante de todos.