Stefano Bollani e Valentina Cenni revelam o docufilm 'Tutta vita': o jazz como comunidade criativa
Docufilm 'Tutta vita' de Valentina Cenni registra a semana de ensaios de Stefano Bollani e um coletivo de jazz rumo ao concerto em Trieste.
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Stefano Bollani e Valentina Cenni revelam o docufilm 'Tutta vita': o jazz como comunidade criativa
Por Giulliano Martini. Apuração in loco e cruzamento de fontes mostram, em termos concretos, como a cena do jazz se organiza quando a prioridade é a música. O documentário Tutta vita, dirigido pela atriz e cineasta Valentina Cenni, captura uma semana de ensaios e convivência coletiva que preparou o concerto no Teatro Politeama Rossetti de Trieste, em 17 de fevereiro de 2025.
O filme acompanha dez músicos que se autoisolaram em uma histórica residência em Gorizia para ensaiar de forma intensiva e sem roteiros rígidos. À frente do grupo está o pianista milanês Stefano Bollani, 53 anos, que lidera sem hierarquias formais, segundo relatos colhidos na apresentação do trabalho.
Valentina Cenni, 44 anos, romagnola, assumiu a direção do projeto com a intenção clara de registrar a instantaneidade do processo criativo do jazz. O documentário estreou na Festa del Cinema di Roma, passou pelo Bif&st e chegou às salas em abril. Neste domingo, dia 12 de abril, às 17h30, Tutta vita foi exibido no Conca Verde com a presença da diretora e de Stefano Bollani.
O elenco reúne nomes consagrados e novos talentos. Entre os veteranos estão Paolo Fresu, Roberto Gatto, Enrico Rava, Antonello Salis, Daniele Sepe e Ares Tavolazzi. No grupo de promessas figuram Matteo Mancuso, Christian Mascetta e Frida Bollani Magoni, filha de Bollani e da cantora Petra Magoni.
Na entrevista de bastidor, a pergunta sobre gestão de egos foi dirigida à diretora: 'De 1 a 10, quão difícil foi coordenar tantos artistas de calibre semelhante?'. A resposta de Valentina Cenni foi direta: 'Zero. Eles se disponibilizaram uns aos outros. Viraram equipe. É o que o jazz permite: o coletivo prevalece. Apesar das diferenças geracionais, esses dez músicos criaram uma comunidade. Em uma cidade de fronteira, gravamos uma obra que narra uma aventura humana, onde limites desaparecem e os egos se fundem. Cheguei a pensar em chamar o filme de “Viandanti davanti al fuoco”.'
Stefano Bollani qualificou-se, na conversa, como 'primus inter pares', retomando uma tradição do jazz em que não existem chefes permanentes, apenas líderes circunstanciais. Ele citou Duke Ellington como exemplo de quem liderou grandes formações sem transformar a música em disputa de egos: 'Os raros líderes foram aqueles que precisavam organizar grandes grupos; sem essa coordenação, uma banda de 20 integrantes teria dificuldade até para embarcar no mesmo ônibus em turnê'.
O resultado de Tutta vita é apresentado como um retrato objetivo do processo criativo: sem artifícios estéticos que diluam a realidade, o filme privilegia o registro dos ensaios, das conversas e das soluções musicais que emergem no dia a dia do coletivo. A dupla Valentina Cenni e Stefano Bollani, casada desde 2018, também divide a tela fora do palco — ambos conduzem o programa 'Via dei matti n°0' na Rai 3, que chega à quinta temporada.
O documentário se coloca, assim, como um documento técnico e afetivo sobre a prática do jazz contemporâneo na Itália: uma sequência de cenas que privilegiam a precisão sonora, o diálogo entre gerações e a dissolução de hierarquias em prol do coletivo musical.