Cirurgia estética: uma em cada cinco mulheres corre risco de dependência, diz estudo
Estudo revela que 1 em 5 mulheres que passaram por procedimentos estéticos apresenta risco moderado a grave de uso compulsivo.
RESUMO ✦
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Cirurgia estética: uma em cada cinco mulheres corre risco de dependência, diz estudo
Por Alessandro Vittorio Romano — Em uma pesquisa que ecoa como um sussurro da cidade sobre o espelho, cientistas da Universidade Hebraica de Jerusalém apontam que os procedimentos de cirurgia estética podem, em uma parcela significativa dos casos, assumir contornos semelhantes a uma dependência. Publicado no Journal of Health Psychology, o estudo analisou 1.614 mulheres israelenses, entre 25 e 71 anos, e é uma das investigações mais amplas já dedicadas aos aspectos psicológicos do uso repetido da medicina estética.
Utilizando critérios adaptados das avaliações de dependência comportamental e por substâncias, os autores perguntaram às participantes se já haviam tentado, sem sucesso, interromper os tratamentos, se continuaram apesar de consequências negativas ou se sentiam um desejo intenso de se submeter a novos procedimentos. Entre as que já passaram por pelo menos um procedimento estético, cerca de 20% atingiram a margem de risco moderado a severo de comportamento compulsivo ao longo da vida, e mais de 15% relataram sintomas no último ano. Considerando todo o grupo pesquisado, quase 9% mostraram sinais compatíveis com uso problemático.
Dois fatores destacaram-se como marcadores mais fortes de risco: uma baixa autoestima ligada à imagem corporal e um uso problemático das redes sociais. A combinação destes elementos aumentou de forma expressiva a probabilidade de desenvolver práticas compulsivas em relação aos tratamentos estéticos. Relações mais tênues foram observadas com atitudes menos favoráveis ao feminismo, insegurança nos vínculos afetivos e uma visão mais negativa do envelhecimento.
Os pesquisadores ressaltam que o estudo não afirma que os procedimentos estéticos sejam intrinsecamente prejudiciais. Para muitas pessoas, a escolha é consciente e positiva — um gesto de cuidado que alinha o exterior ao tempo interno do corpo. Ainda assim, para uma parcela não desprezível, o retorno repetido às clínicas pode adquirir o ritmo de outras dependências comportamentais já descritas pela clínica.
Este trabalho chega em um momento de crescimento mundial da procura pela medicina estética: entre 2019 e 2023, o número de procedimentos subiu cerca de 40%. Os autores pedem cautela na leitura dos achados: por se tratar de um estudo observacional transversal, não é possível estabelecer causalidade. Ainda resta esclarecer se são as redes sociais que favorecem o comportamento compulsivo, se os procedimentos transformam a relação com o corpo e com o conteúdo online, ou se ambos emergem de outros fatores psicológicos subjacentes.
Como observador atento, penso que estamos diante de uma paisagem cultural onde a respiração da cidade e a colheita de hábitos digitais remodelam nosso olhar. O desafio é encontrar cuidado — tanto clínico quanto emocional — para que a busca pela estética não vire um caminho que distancia a pessoa de sua própria raiz de bem-estar. Profissionais de saúde, clínicas e plataformas digitais têm papel na colheita de práticas mais conscientes, onde a estética sirva à vida, e não o contrário.
Em resumo: a cirurgia estética continua a ser uma escolha legítima e muitas vezes positiva, mas exige olhar clínico e social sensível — para que o espelho reflita não só a imagem, mas também a saúde do desejo que o move.