Como a inteligência artificial está moldando (e ameaçando) o cuidado com a saúde: estudo revela erros em metade das respostas
Estudo revela: metade das respostas dos chatbots sobre saúde é problemática; jovens e sistemas públicos estão em risco. Saiba quais modelos erram mais.
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Como a inteligência artificial está moldando (e ameaçando) o cuidado com a saúde: estudo revela erros em metade das respostas
Sábado, 18 de Abril de 2026
Por Alessandro Vittorio Romano
Em um tempo em que a cidade respira pela tela e o corpo busca respostas no sopro digital, uma nova investigação acende um alerta sobre a relação entre a saúde e a inteligência artificial. Um estudo publicado no British Medical Journal - Open avaliou cinco grandes chatbots — ChatGPT, Gemini, Meta AI, Grok e DeepSeek — submetendo-os a perguntas reais sobre saúde. O resultado é duro como um vento de inverno: metade das informações oferecidas pelos modelos foram consideradas “problemáticas”, e uma em cada cinco respostas foi classificada como “altamente problemática”, ou seja, francamente falsa.
Esse dado reverbera como uma pedra num lago calmo se lembrarmos de outra pesquisa, desta vez da Bournemouth University, publicada na revista AI & Society. Entre 31.000 adultos de 35 países, 45% disseram que confiariam em uma IA como se fosse um médico. E de quem já recorreu à inteligência artificial para problemas de saúde física, 42% não procuraram um profissional após receber orientações online.
Para ter ideia da escala, o próprio relatório AI as a Healthcare Ally da OpenAI indica que mais de 40 milhões de pessoas usam diariamente o ChatGPT em busca de conselhos relacionados à saúde. No Brasil e na Itália, a pressa por respostas também reflete a situação dos sistemas públicos: segundo levantamentos citados, 81% dos italianos recorrem à internet em busca de cuidados por causa das condições frágeis da saúde pública.
O estudo do British Medical Journal aponta ainda diferenças entre os modelos: Grok mostrou a maior taxa de respostas erradas (58%), seguido pelo ChatGPT (52%) e pela Meta AI (50%). Pesquisas anteriores já haviam revelado que apenas 32% das citações geradas por alguns modelos correspondiam a fontes reais — o restante é, nos termos do relatório, um verniz de credibilidade sobre informação inventada.
O problema toca especialmente os jovens, que crescem na estação contínua da conectividade e perdem a referência de uma liberdade anterior, mais ligada ao toque humano do que ao clique. Essa nova geração tende a aceitar recomendações digitais sem o filtro da experiência; o limite entre fato e construção se torna tão tênue quanto a neblina matinal sobre um vinhedo.
Na prática, a dependência de respostas automatizadas pode piorar a saúde pública: chatbots que inventam dados, misturam estudos e reforçam viéses confirmatórios alimentam decisões perigosas. O sistema que remunera atenção e engajamento nas plataformas digitais não recompensa a verdade; ele recompensa o tempo de tela. Assim, quem busca alívio encontra, às vezes, uma narrativa convincente em vez de uma orientação segura.
Pesquisadores da Queensland University of Technology também alertam que recorrer ao digital para diagnósticos pode fazer mais mal do que bem. Muitos pacientes relatam sentir-se não ouvidos ou julgados nos consultórios — um vazio que a IA tenta preencher com palavras frias e respostas prontas, mas sem a escuta que cura.
Como observador dos ritmos cotidianos, vejo essa dinâmica como uma colheita de hábitos em mutação: podemos colher conveniência, mas corremos o risco de perder a raiz do cuidado. A solução não é demonizar a tecnologia — que pode ser uma aliada valiosa — mas cultivar discernimento, melhorar a literacia digital e fortalecer a relação humana na medicina. Só assim a respiração da cidade terá espaço para o conhecimento e a confiança poderão florescer novamente.