Inteligência artificial na terapia: psicólogos relatam aumento do uso de chatbots pelos pacientes
Pesquisa da APA mostra que pacientes usam cada vez mais chatbots na terapia; psicólogos alertam para dependência e limites da IA na saúde mental.
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Inteligência artificial na terapia: psicólogos relatam aumento do uso de chatbots pelos pacientes
Por Alessandro Vittorio Romano — Em meio às rotas cotidianas da saúde emocional, surge uma nova paisagem: a presença cada vez mais visível da inteligência artificial nas conversas sobre bem‑estar. Segundo um levantamento da American Psychological Association (APA), mais de três quartos dos psicólogos americanos afirmam que seus pacientes trazem à terapia questões envolvendo IA — seja para encontrar apoio adicional, para tentar um autodiagnóstico ou para aprimorar amizades e relações íntimas.
A pesquisa, intitulada "Chatbot e saúde mental" e realizada com mais de 1.200 profissionais licenciados nos Estados Unidos, revela um retrato rico e complexo: quase 39% dos psicólogos relataram ter dialogado com pacientes que se valeram da inteligência artificial para autodiagnosticar-se. Cerca de 34% observaram o uso de IA para questões práticas do dia a dia, como autodisciplina, afirmações positivas e lembretes comportamentais; 33% identificaram pacientes que buscavam na tecnologia apoio complementar ao tratamento; e 35% notaram que a IA estava sendo encarada como um tipo de “profissional adicional” da saúde mental.
Esses números — sementes lançadas na terra fértil da vida digital — talvez não cheguem a todo o vigor do fenômeno. A pesquisa capta apenas o recorte das interações entre psicólogos e seus pacientes; muitas outras pessoas podem estar recorrendo aos chatbots sem qualquer supervisão clínica, recebendo conselhos que não são avaliados por um profissional humano.
Arthur C. Evans Jr., PhD, CEO da APA, observa que os chatbots, por sua acessibilidade, representam uma via óbvia para quem procura suporte: “São abundantes, fáceis de encontrar e muitas vezes usados mesmo sem cobertura de seguro. No entanto, não têm a mesma capacidade de captar as nuances ou identificar sinais de alerta como um profissional humano.” Sua advertência é clara: antes de confiar cegamente nesses instrumentos para a própria saúde mental, é preciso compreender como funcionam e avaliar criticamente os conselhos que oferecem.
O estudo também destaca como as relações com a IA vão além do pragmático. Para 33% dos psicólogos, os pacientes interagiam com chatbots por diversão; 22% relataram que isso ocorresse por busca de amizade; e 13% perceberam uso para relações íntimas. Entre os pacientes que mantinham conversas contínuas com bots, 68% dos psicólogos notaram que esses usuários se sentiam apoiados ou compreendidos pela máquina, e 41% disseram que os chatbots ajudavam a reforçar estratégias saudáveis de enfrentamento.
Ao mesmo tempo, a proximidade digital traz efeitos colaterais: 36% dos psicólogos afirmaram que alguns pacientes desenvolviam algum grau de dependência dos chatbots. Aparecem também riscos práticos — informações imprecisas, falta de privacidade, limites éticos e a possibilidade de que sinais de risco não sejam identificados por um algoritmo.
Como observador atento das estações do corpo e da cidade, acredito que a chegada massiva da IA à vida emocional exige um olhar de jardinagem: saber onde plantar, quando regar e quando chamar alguém mais experiente. Para os profissionais, a recomendação é acolher a realidade digital dos pacientes e conversar abertamente sobre o uso de IA, estabelecendo limites e avaliando conjuntamente o que é benéfico. Para quem busca ajuda, o conselho é simples e humano: use os chatbots como ferramentas complementares, verifique informações com profissionais e procure ajuda imediata diante de crises.
Em suma, enquanto a tecnologia abre novas trilhas — às vezes cálidas como a brisa matinal, às vezes traiçoeiras como um caminho lamacento —, é essencial cultivar a relação entre o humano e a máquina com cuidado, consciência e compaixão.