Suicídio assistido: proteger a vida ou aprovar uma lei? Reflexões após manifesto de 270 médicos

Reflexões sobre a necessidade de uma lei sobre suicídio assistido à luz do apelo de 270 médicos: proteger a vida e fortalecer os cuidados paliativos.

Suicídio assistido: proteger a vida ou aprovar uma lei? Reflexões após manifesto de 270 médicos

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Suicídio assistido: proteger a vida ou aprovar uma lei? Reflexões após manifesto de 270 médicos

Por Alessandro Vittorio Romano - 21 de junho de 2026

Quando a paisagem social muda, ouvimos primeiro o sussurro das pessoas que estão mais perto do sofrimento. Ontem, o apelo publicado em La Verità, assinado por mais de 270 médicos italianos, trouxe esse sussurro ao centro do debate: uma lembrança firme de que a medicina tem como missão curar, acompanhar e aliviar a dor — não acelerar a morte.

Esses profissionais, que convivem cotidianamente com a fragilidade humana, colocam uma pergunta simples e poderosa: precisamos mesmo de uma lei sobre suicídio assistido? A resposta não é apenas jurídica; é uma interrogação ética, social e profundamente humana. Já havíamos tocado nesse fio em 16 de maio, no artigo que afirmava que não há um vazio legal a ser preenchido: a ordem jurídica italiana já reconhece o direito do paciente a recusar tratamentos considerados desproporcionados ou indesejados.

Além disso, existem os instrumentos de alívio — as cure palliative e a terapia da dor — que funcionam como um jardim de cuidados onde a presença humana pode florescer mesmo em terreno árido. É nesse terreno que devemos semear recursos, formação e políticas públicas, para que ninguém se sinta sozinho diante da doença.

A verdadeira escolha que a comunidade enfrenta não é entre prolongar o sofrimento a todo custo ou facilitar a morte, mas sim como tornar a cura e o cuidado mais presentes na vida dos que padecem. O risco apontado pelos médicos signatários é real: transformar a morte em uma opção socialmente aceita pode alterar, lentamente, a cultura do cuidado. E a cultura, como um rio que molda a paisagem, redireciona também nossas decisões coletivas.

Do ponto de vista religioso e civil, há uma confiança compartilhada de que a vida não é uma mera posse individual, mas um dom que antecede nossas escolhas. Proteger esse dom não é apenas um princípio teológico; é um pilar da nossa civilização jurídica e moral. Por isso, a resposta a quem sofre deve ser a multiplicação da presença — médicos, famílias, políticas de saúde e redes de solidariedade — e não a aceleração do término da jornada.

Há, naturalmente, uma urgência em não descuidar da dor legítima: a solidariedade social pede empatia, serviços de saúde mais robustos, acesso amplo às terapias da dor e um fortalecimento eficaz dos cuidados paliativos. Este é o terreno fértil onde a sociedade pode mostrar sua verdadeira grandeza: cuidando dos mais frágeis como se cuidasse de suas raízes.

O apelo dos 270 médicos não é um manifesto de negação diante da angústia; é um convite a pensar uma política de cuidado que reafirme a dignidade humana sem transformar a morte numa saída institucionalizada. Em linguagem sensível, proponho que olhemos para esta questão como observadores de uma paisagem em transição: é hora de regar a terra do cuidado, não de aceitar que o fruto mais vulnerável seja arrancado antes do tempo.

Em suma, a pergunta que fica, ecoando como a respiração de uma cidade ao amanhecer, é esta: queremos legislar uma via de saída ou fortalecer as estradas que levam ao encontro do cuidado? A resposta definirá não apenas uma lei, mas o ritmo moral da nossa convivência.