Nova técnica com mosquitos ‘incompatíveis’ reduz em 88% ovos férteis da zanzara tigre em teste na Itália
Técnica do Maschio Incompatibile reduz em 88% ovos férteis da zanzara tigre em teste na ENEA Casaccia; 1,6 milhão de machos liberados em 2025.
RESUMO ✦
Sem tempo? A Lili IA resume para você
Nova técnica com mosquitos ‘incompatíveis’ reduz em 88% ovos férteis da zanzara tigre em teste na Itália
Por Alessandro Vittorio Romano — Uma experiência que respira como uma intervenção sobre o tempo e o espaço urbano: pela primeira vez na Europa, uma campanha em larga escala da Técnica do Maschio Incompatibile (IIT) conseguiu reduzir em 88% a capacidade da Aedes albopictus — a conhecida zanzara tigre — de produzir ovos férteis que sobreviveriam ao inverno. O ensaio foi conduzido no Centro Ricerche ENEA Casaccia, em Roma, fruto da colaboração entre ENEA, Google LLC (projeto Debug) e a Sapienza Università di Roma.
A proposta é simples e inspirada na própria natureza: machos são infectados com a bactéria Wolbachia e, ao acasalarem com fêmeas selvagens, tornam as posturas estéreis. Assim, sem despejar mais venenos químicos no tecido urbano, atua-se sobre a dinâmica populacional — uma colheita de hábitos que visa manter as populações abaixo das chamadas sombras do risco epidemiológico.
Entre julho e outubro de 2025 foram liberados cerca de 1,6 milhões de machos incompatíveis em 53 hectares do Centro Casaccia. O monitoramento — realizado com ovitrampas e armadilhas para adultos — mostrou uma queda consistente tanto no número de ovos quanto na fertilidade das posturas quando comparado ao ano anterior e a uma área de controle acompanhada pela Sapienza. No campo tratado, o limiar de atenção de 100 ovos por armadilha foi ultrapassado apenas em 2 de 16 coletas, contra 12 na área de controle e 14 na mesma área em 2024.
Riccardo Moretti, pesquisador do Laboratório Agricultura 4.0 da ENEA, ressalta que “aplicar a técnica exclusivamente à zanzara tigre oferece uma alternativa concreta ao uso massivo de inseticidas químicos. Reduzir de forma estável a presença de mosquitos capazes de transmitir vírus perigosos, como Dengue, Chikungunya e Zika, fortalece significativamente a prevenção sanitária, principalmente nos contextos urbanos e periurbanos mais expostos”.
Para Maurizio Calvitti, da Divisão de Sistemas Agroalimentares Sustentáveis da ENEA, o ensaio integra uma visão maior: o controle biológico de vetores é parte da transição ecológica, do adaptação às mudanças climáticas e da regeneração urbana. “O Centro ENEA Casaccia funciona como um modelo-piloto potencialmente replicável em outros cenários, na Itália e fora dela”, afirmou.
O resultado tem sabor de terra revolvida: ao agir no ciclo reprodutivo, a técnica planta a possibilidade de um controle duradouro e menos invasivo, reduzindo a necessidade de químicos que alteram a respiração das cidades. Em 2026 a campanha continua, com liberações antecipadas e doses maiores para ampliar a eficiência, e há intenção de integrar a abordagem com outras ferramentas de manejo, caso necessário.
Num tempo em que o clima alonga verões e aproxima vetores de novas latitudes, técnicas como a IIT nos convidam a olhar para a convivência urbana com os insetos como um processo cuidadoso — uma poda fina para preservar a saúde coletiva sem empobrecer a paisagem. A experiência em Casaccia é um mapa inicial: se a colheita for bem manejada, poderemos colher menos mosquitos e mais tranquilidade nas nossas praças e varandas.