Toxicidade financeira aumentou entre pacientes com câncer, revela estudo de Turim
Estudo de Turim revela aumento da toxicidade financeira entre pacientes com câncer; sacrifícios e gastos privados afetam qualidade de vida e adesão ao tratamento.
RESUMO ✦
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Toxicidade financeira aumentou entre pacientes com câncer, revela estudo de Turim
Por Alessandro Vittorio Romano — Em uma Itália onde a paisagem dos cuidados de saúde deveria ser um refúgio, surge um efeito colateral menos visível, mas profundamente erosivo: a tossicità finanziaria, ou toxicidade financeira. Marco Di Maio, da Aiom, resume com objetividade sensível: é “um problema clínico que influencia a qualidade de vida, a adesão às terapias e, em alguns casos, a sobrevida”.
Entre outubro e dezembro de 2024, um estudo conduzido na Città della Salute e della Scienza de Turim avaliou 359 pacientes oncológicos (177 homens e 182 mulheres) em tratamento ativo, usando o questionário italiano Proffit — desenhado para captar as manifestações e causas da tossicità finanziaria no contexto italiano. Os resultados apontam para uma colheita amarga: o escore mediano de toxicidade financeira foi 33,33 em uma escala de 1 a 100.
O dado humano por trás dos números revela-se em percentuais que soam como pequenas tempestades pessoais: 35,2% disseram que a doença reduziu suas reservas econômicas, e 1 em cada 3 teme que a condição financeira comprometa o acesso a cuidados adequados. Entre os mais fragilizados estão os desempregados e os divorciados (mediana 52,38), enquanto aposentados registraram uma mediana menor (28,57).
As vozes do cotidiano aparecem nas escolhas e sacrifícios: 32,1% reduziram gastos com férias, restaurantes ou entretenimento; 46% desembolsaram valores para consultas e exames na rede privada — nem sempre por preferência, muitas vezes pela insuficiência da oferta pública e pelos prazos de espera. Mais da metade (56%) arcaram com medicamentos suplementares e suplementos; 40% gastaram com psicoterapia, fisioterapia ou cuidados odontológicos, cuidados que às vezes se tornam consequência das próprias terapias oncológicas.
Mesmo o trajeto até a clínica é um detalhe que se multiplica: nas Molinette, os pacientes relataram deslocamentos médios não muito longos (até 40 minutos em transporte público, 22 minutos de carro), mas a repetição desses percursos transforma pequenas distâncias em peso acumulado — como se cada visita fosse uma nova estação a atravessar.
Os autores do estudo destacam que, ao contrário do que poderia supor-se, a toxicidade financeira não está associada a tipos específicos de tumor — pulmão, mama ou pâncreas aparecem com similaridade na casuística. O fator decisivo é a disponibilidade econômica prévia: as raízes financeiras influenciam diretamente o declínio da qualidade de vida.
No cenário internacional, esse fenômeno já é reconhecido como prognóstico negativo nos Estados Unidos. Na Itália, embora o Serviço Nacional de Saúde cubra boa parte dos custos, a pesquisa alerta para um agravamento influenciado por carências estruturais, falta de recursos e disparidades regionais: o fardo dos gastos out of pocket está crescendo.
Como observador que ama mapear os ritmos da vida e do cuidado, vejo nessa realidade uma paisagem que pede atenção: reduzir a toxicidade financeira é trabalhar para que o acolhimento médico volte a ser um jardim — não um labirinto de escolhas dolorosas. É urgente que políticas e planejamento regional cuidem das raízes, para que a cura não venha à custa da estabilidade econômica dos que já lutam para permanecer inteiros.