Uso de cannabis na adolescência reduz ganhos cognitivos, aponta estudo com 11 mil jovens
Estudo com 11 mil jovens mostra que o uso de cannabis na adolescência está ligado a ganhos cognitivos menores, com o THC afetando especialmente a memória.
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Uso de cannabis na adolescência reduz ganhos cognitivos, aponta estudo com 11 mil jovens
Por Alessandro Vittorio Romano — Um novo estudo liderado por Natasha Wade, do Department of Psychiatry da University of California San Diego School of Medicine, revela que o uso de cannabis durante a adolescência está associado a um desenvolvimento mais lento de capacidades cognitivas essenciais. A pesquisa, publicada em Neuropsychopharmacology, acompanhou mais de 11.000 participantes do famoso Adolescent Brain Cognitive Development (ABCD Study), desde os 9-10 anos até os 16-17 anos, medindo desempenho cognitivo e consumo de substâncias ao longo do tempo.
Como quem observa a paisagem enquanto caminha, os pesquisadores combinaram relatos pessoais com medidas biológicas — exames em cabelo, urina e saliva — para ter um retrato mais fiel da exposição real à substância, capaz de detectar consumo ocorrido meses antes. Essa soma de sinais mostrou uma tendência clara: adolescentes que consumiram cannabis apresentaram ganhos mais limitados em áreas como memória, linguagem, atenção e velocidade de processamento, comparados aos pares que não usaram.
Em algumas trajetórias, esses jovens começaram em níveis semelhantes ou até levemente superiores na infância. Mas, como uma árvore que encontra menor solo fértil, com o avanço da idade e o início do uso de cannabis seu desenvolvimento tende a se estabilizar, enquanto o dos colegas continua a crescer. “A adolescência é uma fase crítica para o desenvolvimento cerebral”, explica Wade. “Os jovens que começam a usar cannabis não melhoram no mesmo ritmo dos seus pares. Diferenças que parecem pequenas hoje podem afetar aprendizado, memória e funcionamento diário no futuro.”
Um olhar mais atento sobre os componentes da planta apontou o THC (tetraidrocanabinol), principal ingrediente psicoativo, como provável responsável pelas alterações observadas: participantes com evidência biológica de exposição ao THC mostraram piora progressiva da memória, enquanto essa tendência não foi evidente no pequeno subgrupo exposto ao CBD (canabidiol). Os autores lembram, porém, que o número de indivíduos expostos ao CBD é limitado e que os produtos à base de cannabis podem ser complexos e variados.
Importante: o estudo não estabelece uma relação causal direta, embora tenha controlado múltiplos fatores de confusão — contexto familiar, saúde mental, uso de outras substâncias e desempenho cognitivo prévio. Ainda assim, em uma fase de mudanças rápidas como a adolescência, mesmo pequenas diferenças podem ter impacto significativo no rendimento escolar e nas rotinas diárias.
Como guardiões do bem-estar, pais, educadores e políticas públicas devem encarar esses resultados com atenção serena: trata-se de compreender o tempo interno do corpo jovem, a colheita de hábitos que molda o futuro. A pesquisa seguirá os participantes para avaliar efeitos a longo prazo e esclarecer melhor como o momento de início e a frequência do consumo influenciam o cérebro em desenvolvimento.
Em tom de observação sensível: a vida adolescente é um jardim em crescimento — proteger o solo é cuidar do florescer futuro. Informação baseada em evidências é a luz que orienta essa colheita.