Bélgica em greve: mais de 80 mil nas ruas contra as reformas de De Wever

Mais de 80 mil pessoas em Bruxelas contra as reformas de Bart De Wever; sindicatos protestam por indexação salarial, poder de compra e reforma das pensões.

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Bélgica em greve: mais de 80 mil nas ruas contra as reformas de De Wever

Bruxelas — Em pouco mais de um ano no poder, o governo liderado por Bart De Wever voltou a enfrentar uma onda de mobilizações sindicais que paralisaram serviços e transportes por todo o país. Nesta quinta-feira, 12 de março, uma nova jornada de greve geral convocada pelas três principais centrais — FGTB-ABVV, CSC-ACV e CGSLB-ACLVB — levou dezenas de milhares às ruas de Bruxelas em protesto contra um pacote de medidas que, na leitura dos sindicais, reduz direitos laborais e fragiliza os alicerces do contrato social.

Segundo a polícia, o cortejo reuniu cerca de 80 mil pessoas na capital; as centrais estimam um número superior a 100 mil, tornando a manifestação uma das maiores dos últimos anos. Este episódio integra uma sequência de ações que começaram após a formação do novo Executivo, em fevereiro de 2025: greve geral a 31 de março, dia de mobilização a 29 de abril, e três dias consecutivos de paralisação nacional em 24, 25 e 26 de novembro, que interromperam serviços públicos e transportes.

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As razões da contestação são claras e persistentes: a contestação às medidas de austeridade e às reformas propostas pelo governo — chefiado pela N-VA — incide sobre a indexação salarial, a flexibilização do mercado de trabalho e as alterações previstas na reforma das pensões. Para os líderes sindicais, tocar na indexação automática dos salários face ao custo de vida equivale a um ataque à dignidade dos trabalhadores; como referiu o presidente da Federação Geral do Trabalho Belga, Bert Engelaar, trata‑se de um verdadeiro “atentado à dignidade”.

O debate centra‑se também no poder de compra. Num contexto inflacionário, os sindicatos argumentam que os ganhos salariais não acompanham as perdas reais de receita das famílias, e que as medidas em preparação penalizarão sobretudo os mais vulneráveis. Outro ponto sensível é a introdução do chamado “malus pension”, um mecanismo que pode punir trabalhadores que optarem por antecipar a saída do mercado de trabalho.

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Do ponto de vista da estratégia política, estamos diante de um movimento que pretende redesenhar, por pressão social, os contornos da governação económica: uma espécie de jogo posicional no tabuleiro europeu, onde o Executivo tenta consolidar reformas estruturais e os sindicatos respondem com mobilização coletiva para preservar direitos adquiridos. A tectônica de poder no país permanece frágil; a repetição das greves denuncia uma incapacidade de construir pontes duradouras entre governo e sociedade civil.

Os próximos passos dependerão da capacidade do Executivo em comunicar ganhos tangíveis e de negociar concessões realistas. Para os sindicatos, manter a coesão entre as centrais é essencial — e o histórico de mobilizações recentes demonstra que esse frente‑único permanece operacional. O desfecho desse confronto terá impacto direto não só sobre as políticas domésticas, mas também sobre a percepção internacional da estabilidade belga, um ponto sensível na arquitetura política da União Europeia.

Marco Severini, Espresso Italia — análise estratégica sobre a dinâmica social e política na Bélgica.

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