Bruxelas e a cegueira da UE diante do clamor por Gaza: 12 mil nas ruas exigem ação
12 mil em Bruxelas exigem que a UE deixe de silenciar sobre Gaza; apelo por ações concretas contra colónias e por coerência diplomática.
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Bruxelas e a cegueira da UE diante do clamor por Gaza: 12 mil nas ruas exigem ação
Bruxelas voltou a transformar-se, neste fim de semana, em um espelho das tensões que atravessam a política externa europeia. No domingo, 17 de maio, cerca de 12 mil pessoas desfilaram sob chuva pela capital da União Europeia para recordar a Nakba — os 78 anos desde a catástrofe palestina de 1948 — e para protestar contra o que chamam hoje de genocídio em Gaza. O coro que ecoou nas ruas não foi apenas em memória do passado: foi uma acusação direta à inação e à complicidade dos governos europeus.
Entre as palavras de ordem mais repetidas, ressoou claramente a mensagem dirigida às instituições: “Vergogna UE, anche le tue mani sono sporche di sangue”. As imagens das bandeiras palestinas à janela, das keffiyehs nos ombros e das frases pintadas nas paredes próximas ao bairro europeu — incluindo um grafite com os dizeres ‘EU Complice’ que pode ser avistado da fachada do Berlaymont — confirmam que não se trata de um protesto isolado, mas de uma persistente tensão social no coração da tomada de decisão europeia.
Para quem observa o jogo diplomático como um tabuleiro, o quadro é inquietante: enquanto a opinião pública nas ruas se mobiliza, as salas institucionais da UE mantêm um silêncio que muitos interpretam como conivente. Há exceções simbólicas — como o grupo “EU Staff for Peace” presente na manifestação —, mas a regra tem sido uma bolha institucional cada vez mais desconectada dos alicerces frágeis da diplomacia e das demandas populares.
Os manifestantes exigem coerência: que a UE aplique os princípios que proclama, os da Carta das Nações Unidas e dos próprios Tratados comunitários, sem distinguir latitude ou conveniências políticas. Exigem que as declarações de repúdio à expansão de colónias sejam acompanhadas por medidas concretas e restritivas; que as notas de imprensa não se limitem a relativizar ilegalidades reconhecidas pelo direito internacional; que a palavra “ocupação” seja seguida de ações tangíveis, não apenas de retórica diplomática.
Não se trata de apelar a gestos performativos, mas de solicitar que a arquitetura das decisões europeias volte a assentar-se sobre princípios e não apenas em cálculos de curto prazo. A experiência recente da Flotilha — que escancarou a frágil eficácia das respostas europeias — demonstra que os instrumentos existentes podem ser acionados, caso haja vontade política para tanto.
Enquanto isso, a paisagem urbana de Bruxelas faz o papel de cartografia emocional: adesivos nas estações de metrô, murais e conversas em restaurantes de cozinha libanesa, síria e palestina lembram às instituições que o sofrimento não está distante, mas ao alcance de um diálogo humano que elas continuam a negar. A União Europeia corre o risco de perder a autoridade moral que ainda lhe resta se permanecer, por muito tempo, numa posição de indiferença calculada.
Como analista, observo este momento como um movimento decisivo no tabuleiro geopolítico: há forças que pressionam por uma recalibragem do eixo de influência europeu, e o modo como Bruxelas responderá a este clamor definirá não só sua credibilidade externa, mas a solidez dos próprios alicerces da diplomacia comunitária.
Marco Severini – Espresso Italia