Confindustria alerta em Bruxelas: suspender o mercado ETS, Itália não aguenta mais seis meses
Orsini (Confindustria) pede suspensão do mercado ETS: 'Itália não aguenta seis meses', e defende dívida comum e aceleração das renováveis.
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Confindustria alerta em Bruxelas: suspender o mercado ETS, Itália não aguenta mais seis meses
Bruxelas — Em um apelo que soa como um movimento decisivo no tabuleiro das relações industriais europeias, o presidente da Confindustria, Emanuele Orsini, pediu hoje em Bruxelas a suspensão do mercado de emissões ETS na atual conjuntura. "O nosso é um grito de alarme: a indústria italiana não tem seis meses de tempo", declarou Orsini durante um ponto de imprensa realizado a poucas centenas de metros do Conselho Europeu que discute, entre outros temas, o futuro do mecanismo anti-emissões instaurado em 2005.
Orsini sublinhou que as decisões do encontro vão influir diretamente sobre "o futuro de 83% do welfare da Itália", reforçando a visão de que estamos diante de um redesenho de fronteiras invisíveis entre política industrial e política climática. Para o dirigente, o ETS vigente deveria ser temporariamente suspenso, ao menos enquanto perdurar o atual contexto geopolítico e energético.
O presidente da principal federação empresarial italiana contextualizou o pedido com números: antes do conflito o preço médio da energia atingia 106 euros por megawatt-hora; hoje situa-se em 160 euros — um acréscimo de cerca de 60%. "Não esperamos que o conflito termine nos próximos dias, nem que o gás ou a gasolina fiquem mais baratos", afirmou, apontando para alicerces frágeis da diplomacia econômica quando comparados os instrumentos de intervenção entre Estados-membros.
Orsini destacou o contraste com medidas adotadas por outros países: a Alemanha teria alterado a própria Constituição para mobilizar 200 bilhões em investimentos energéticos e comprometido 26 bilhões por ano para mitigar custos; a França implementou um teto de 70 euros/MWh; na Espanha, o preço médio ronda os 40 euros. "Como podemos competir e preservar nossa indústria quando a energia já é o primeiro custo de produção?", questionou.
No médio prazo, o presidente de Confindustria indicou a urgência de reforçar o armazenamento energético e construir um mix equilibrado a nível europeu, acelerando sobretudo as renováveis. Em solo italiano há ainda cerca de 130 GW por desenvolver, um potencial travado por atrasos autorizativos locais. "Devemos concretizar o máximo possível de eólico, fotovoltaico e hidroelétrico, e iniciar de imediato o percurso sobre os microreattori nucleares, que, porém, demandarão pelo menos dez anos", afirmou, numa alusão à necessidade de visão estratégica de longo prazo.
Orsini também defendeu um passo adiante da União Europeia em direção ao debito comune — dívida comum — como instrumento para sustentar Estados-membros numa crise prolongada. "Não podemos confiar apenas em auxílios estatais que ampliariam o hiato competitivo entre a Itália e outros países", advertiu, enfatizando que por trás de cada empresa que fecha ou deslocaliza há centenas — às vezes milhares — de postos de trabalho em jogo.
De sinal diverso é o posicionamento da BusinessEurope, a confederação das empresas europeias, que encaminhou aos líderes comunitários prioridades alternativas em vista do cimeira. Ainda que as propostas variem, a tensão revela a tectônica de poder em curso: a União está diante da necessidade de harmonizar instrumentos fiscais, industriais e de segurança energética para evitar um deslocamento permanente da capacidade produtiva.
Do ponto de vista estratégico, este é um momento para decisões de alicerce. A escolha entre preservar metas climáticas e salvaguardar a base industrial traduz-se numa negociação de alta intensidade, onde cada movimento no tabuleiro europeu determinará a posição relativa dos atores nos próximos anos. A Itália lançou um apelo de responsabilidade e coesão: resta ao Conselho transformar esse apelo em instrumentos concretos, capazes de restaurar competitividade sem desarmar a ambição de transição energética.
Marco Severini — Espresso Italia


