Economia verde da UE atinge 5,8 milhões de empregos em 2023; construção e agricultura impulsionam crescimento
Economia verde da UE chega a 5,8 milhões de empregos em 2023; construção e agricultura lideram, renováveis crescem 79%. Análise estratégica de Marco Severini.
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Economia verde da UE atinge 5,8 milhões de empregos em 2023; construção e agricultura impulsionam crescimento
Bruxelas – Em um movimento que redesenha um dos vetores centrais da técnica de poder econômica europeia, a economia verde da UE registrou em 2023 um total recorde de 5,8 milhões de empregos em equivalentes a tempo pleno. É a conclusão do novo relatório do Eurostat, publicado em 4 de junho, que confirma uma ascensão contínua: quase 2 milhões de vagas a mais desde 2014, com um crescimento médio anual de 6%.
Os números chegam em uma semana simbolicamente densa: a EU Green Week em Bruxelas e a iminente celebração do World Environment Day. Mas, para além do calendário, estes dados indicam um movimento estratégico — um verdadeiro movimento decisivo no tabuleiro da transição energética e produtiva do continente.
O principal motor do aumento de emprego é o setor das construções. Em nove anos, os postos equivalentes a tempo pleno saltaram de 0,7 milhão em 2014 para 1,6 milhão em 2023, o que traduz uma taxa média anual próxima a 11%. Este impulso é talhado pela demanda por edifícios de alta eficiência energética, pela instalação de infraestruturas para energias renováveis e por programas massivos de reabilitação urbana e eficiência térmica — obras que, em termos geopolíticos, fortalecem tanto a segurança energética quanto a resiliência econômica das estruturas nacionais.
Na sequência, o conjunto formado por agricultura, silvicultura e pesca demonstrou crescimento robusto: passou de 400 mil empregos em 2014 para 700 mil em 2023, com média anual de 5%. A manufatura verde seguiu a mesma taxa, avançando de 0,7 para 1,0 milhão no mesmo período. São setores que constituem os alicerces materiais da transição — componentes, cadeias de suprimentos e capacidades produtivas imprescindíveis à estabilidade de longo prazo.
Progressos relevantes também foram observados em áreas tradicionalmente estatais e de serviços: administração pública e defesa (de 300 mil para 400 mil), atividades técnico-científicas (de 200 mil para 300 mil), serviços (de 1,2 milhão para 1,4 milhão) e educação (de 50 mil para 70 mil). Estes números evidenciam que a transição não é apenas industrial, mas institucional e social — uma tectônica de poder que mobiliza o setor público, o saber e os serviços.
Em uma leitura orientada pela finalidade ambiental das ocupações, o relatório destaca desempenhos ainda mais expressivos: a produção de energias renováveis registrou um aumento de 79% nas vagas — de 0,4 milhão para 0,8 milhão entre 2014 e 2023. Também cresceram substancialmente os empregos ligados à proteção do solo e das águas superficiais e subterrâneas (+60%, de 400 mil para 700 mil). Registra-se igualmente avanço nas atividades relacionadas à tutela da qualidade do ar e do clima, entre outras finalidades ambientais fundamentais.
O quadro que emerge é multifacetado: mais empregos, sim, mas sobretudo um redesenho de capacidades nacionais e europeias. Para o analista que observa este cenário como um tabuleiro de xadrez — onde cada casa ocupa importância estratégica — a mensagem é clara. A economia verde está a construir alicerces que reforçam a autonomia energética, reconstroem cadeias produtivas e elevam a resiliência diante das crises climáticas e geopolíticas.
Resta o desafio político: converter esse crescimento em políticas públicas que garantam formação, transição justa e coesão territorial. Sem esse apreço estratégico, os ganhos em números podem permanecer fragmentados, enquanto o objetivo real — segurança, estabilidade e prosperidade sustentável — exige coordenação fina e visão de Estado.
Marco Severini
Analista sênior de geopolítica e estratégia — Espresso Italia