EUA e Israel reagrupam o mundo árabe-sunita e deixam a UE à margem
EUA e Israel recompõem alianças entre países árabes-sunitas, enquanto a UE corre o risco de ficar à margem do novo jogo geopolítico.
RESUMO ✦
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EUA e Israel reagrupam o mundo árabe-sunita e deixam a UE à margem
Bruxelas — A conflagração no Irã e seus efeitos colaterais produziram mais do que turbulência económica; redesenharam um novo arranjo de poder no tabuleiro do Oriente Médio. Em gestos que alteram regras de engajamento, os Estados Unidos, ao sustentar o apoio militar a Israel e ao reforçar presença no Estreito de Hormuz, impulsionaram um movimento cujos efeitos ainda se difundem pela região.
Em resposta direta às operações israelenses e ao que muitos percebem como um beneplácito norte-americano, capitais sunitas tradicionais — Arábia Saudita, Paquistão, Egito e Turquia — começaram a costurar um eixo estratégico de contenção, buscando inerentemente um cessar-fogo e um novo equilíbrio de forças. O que surge é um bloco alternativo, de geometria inédita, que corre o risco de marginalizar a União Europeia — estilhaçada entre dependência atlântica e hesitações diplomáticas.
Não se trata apenas de eventos militares; trata-se de uma realocação de confiança e soberania. Os recentes ataques unilaterais atribuídos a Israel no Qatar, em setembro passado, puseram em dúvida os compromissos de proteção que sustentam o mecanismo do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG). A lógica do pacto: segurança das capitais em troca de fornecimento energético, mostrou-se vulnerável.
O momento decisivo, sob um prisma estratégico, foi a assinatura — a 17 de setembro de 2025 — do Acordo Estratégico de Defesa Mútua entre Arábia Saudita e Paquistão. Este tratado, que reforça laços históricos e dá a Riad um guarda-chuva militar que chega a incluir dimensões nucleares de dissuasão fornecidas por Islamabad, é um movimento tectônico. É uma resposta clara ao que os países consideram um reposicionamento arriscado de Washington e ao emprego unilateral de força por Israel.
No plano atlântico, a relação transatlântica mostra-se fragmentada. A retórica do presidente norte-americano, incluindo a ameaça de abandono da NATO, ainda que possivelmente retórica, abriu espaço para uma prática de desengajamento. Mesmo sem se retirar formalmente da Aliança, os Estados Unidos podem optar por reduzir a tração operacional — mantendo a NATO em espera. Nesse vácuo, surge a oportunidade para a Turquia, que já detém o segundo maior contingente da organização (494.500 soldados), de assumir uma posição de influência estratégica, transitando entre múltiplas lealdades.
Para a União Europeia, a consequência é dupla: perdida a alavanca atlântica e ausente uma estratégia coerente própria, a UE vê-se privada de um espaço que poderia ter ocupado como alternativa credível aos Estados Unidos. A hesitação europeia — fruto tanto de dependência como de cautela frente a Israel — transformou-se numa falha geopolítica. Em termos de diplomacia de estabilidade, a Europa corre o risco de assistir à reorganização dos eixos de poder como espectadora.
Na leitura de longo prazo, estamos perante uma reconfiguração onde a lógica de alianças é realocada: o bloco arabo-islâmico sunita, agora mais coeso em termos estratégicos, redesenha fronteiras de influência invisíveis. A UE, para evitar ficar relegada a mero observador, precisa de arquitetar uma iniciativa soberana que ofereça segurança energética e garantias diplomáticas críveis. Caso contrário, as peças no tabuleiro continuarão a mover-se e o velho continente perderá influência nas decisões que determinarão a estabilidade regional.
Como num jogo de xadrez de alta estirpe, cada movimento é calculado para ganhar espaço de manobra. O que resta à Europa é escolher entre ser um peão do passado ou um jogador capaz de lançar um movimento decisivo que restaure seu papel como mediador de referência.