Relatório da Europol revela 731 redes criminosas na UE e 400 mil afiliados: um novo tabuleiro de risco

Europol aponta 731 redes criminosas na UE e 400 mil afiliados; tráfico de drogas e fraudes online dominam. Cooperação internacional mostra resultados.

Relatório da Europol revela 731 redes criminosas na UE e 400 mil afiliados: um novo tabuleiro de risco

RESUMO ✦

Sem tempo? A Lili IA resume para você

Gerando resumo com IA...

Relatório da Europol revela 731 redes criminosas na UE e 400 mil afiliados: um novo tabuleiro de risco

Bruxelas – O mais recente relatório da Europol, intitulado Decoding the EU’s Most Threatening Criminal Networks, traça um panorama preocupante, porém esclarecedor, sobre a evolução da criminalidade organizada na União Europeia. Apresentado em 26 de junho, o documento, compilado com contributos dos 27 Estados‑membros e parceiros internacionais, identifica 731 redes criminosas ativas na UE, contabilizando mais de 400 mil afiliados de 118 nacionalidades — cerca de 60% das existentes no mundo.

O número, em aparente redução face às 821 redes registradas em 2024, solicita uma leitura rigorosa: conforme observou Jürgen Ebner, vice‑diretor executivo da Europol, a queda no registo não equivale a um declínio automático da criminalidade. É, antes, o reflexo do que as investigações nacionais conseguem mapear em cada momento. Em paralelo, emergiram 533 novas redes, sinal de uma paisagem em movimento constante.

Há, porém, um dado digno de atenção estratégica: aproximadamente 80% dos grupos identificados há dois anos foram neutralizados. Esta é uma prova de que a cooperação internacional funciona e produz resultados tangíveis — um movimento no tabuleiro que derruba peças adversárias. Ainda assim, como sublinha Ebner, os alvos eliminados não extinguem a demanda nem as oportunidades de lucro; mercados ilícitos tendem a ser preenchidos por novos atores, mantendo a pressão sobre os alicerces da economia e da governança.

O relatório destaca também as características das 200 redes mais persistentes: estrutura hierárquica, frequentemente baseada em laços familiares, enraizamento transnacional, solidez financeira e uso sistemático de corrupção e intimidação. Quando um líder cai, outro rapidamente ocupa o lugar — um mecanismo de resiliência que lembra a substituição metódica de peças numa partida bem jogada. Hoje, 64% das redes são hierárquicas (era 57% em 2024); quase 80% operam há pelo menos três anos; um terço existe há mais de uma década.

Outro vetor crítico é a infiltração na economia legal: 85% das redes utilizam estruturas empresariais formais para facilitar ou ocultar operações. Como adiantou o comissário europeu para Assuntos Internos, Magnus Brunner, não se trata de bandos de rua, mas de verdadeiras multinacionais do crime que exploram vulnerabilidades financeiras e institucionais.

Quanto aos setores, o tráfico de drogas permanece dominante, presente em 36% das redes. Em ascensão estão as fraudes, com as fraudes online a ganharem terreno. Uma em cada cinco redes mantém ligações diretas com a América Latina, usada como corredor para o tráfico de cocaína. Preocupa também o recrutamento de menores: 6% das redes alistam jovens entre 8 e 17 anos para tarefas de alto risco, da venda de drogas a ações violentas.

Do ponto de vista estratégico, o relatório demonstra que as organizações criminosas não agem apenas reativamente à procura de bens ilícitos; elas sondam ativamente sistemas digitais, financeiros e geopolíticos à procura de fragilidades a explorar. É uma tectônica de poder que redesenha, de forma invisível, zonas de influência e vulnerabilidade.

Em suma, a mensagem é dupla e clara: há progressos operacionais — fruto da cooperação entre Estados —, mas também persistem estruturas resilientes e adaptativas que exigem respostas mais robustas, integradas e de longo prazo. No tabuleiro europeu, as peças mudam, mas a partida está longe de terminar.

Marco Severini
A voz da geopolítica e estratégia internacional da Espresso Italia