Hungria revoga veto e abre caminho para negociação de adesão da Ucrânia à UE

Hungria retira veto e abre primeiros capítulos negociais para a adesão da Ucrânia à UE após acordo sobre direitos das minorias húngaras.

Hungria revoga veto e abre caminho para negociação de adesão da Ucrânia à UE

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Hungria revoga veto e abre caminho para negociação de adesão da Ucrânia à UE

Por Marco Severini — Em um movimento que redesenha, com cautela, um novo desenho das influências no tabuleiro europeu, a Hungria sinalizou a retirada do veto que impedia a abertura das negociações de adesão da Ucrânia à União Europeia. A decisão, formalizada na reunião dos embaixadores da UE em Bruxelas (COREPER) no dia 3 de junho, permitiu a abertura do primeiro bloco de capítulos negociais que compõem o longo caminho de integração de Kiev.

Segundo fontes diplomáticas, o representante húngaro no COREPER retirou as reservas que travavam o processo, após um acordo bilateral anunciado pelo primeiro-ministro Péter Magyar. Na mesma data, Magyar divulgou nas redes sociais um entendimento com Kiev sobre direitos das minorias, destinado a proteger os direitos linguísticos, educacionais, culturais e políticos de cerca de 100 mil cidadãos húngaros da região da Transcarpácia, no oeste ucraniano.

O impasse sobre as garantias às minorias vinha desde o bloqueio imposto pelo governo anterior de Viktor Orbán, cujo veto, ao ser aplicado conjuntamente às negociações da Moldávia, havia paralisado também o percurso de Chisinau dentro do processo de adesão. A derrota eleitoral de Orbán em abril de 2026 e a composição do novo governo, liderado por Péter Magyar desde 9 de maio, criaram as condições políticas para este reposicionamento.

Em Bruxelas, a Comissão Europeia saudou o acordo como “um passo importante”, sublinhando que a retirada das objeções húngaras abre a possibilidade de iniciar a avaliação dos clusters fundamentais — Estado de direito, instituições democráticas, administração pública, justiça, direitos fundamentais e critérios econômicos — tanto para a Ucrânia quanto para a Moldávia. Portavoces da Comissão afirmaram que o texto acordado deverá ser incorporado ao plano de ação apresentado por Kiev na sua candidatura, processo que, segundo a instituição, deve avançar “muito em breve”.

É imperativo, no entanto, perceber este gesto dentro de sua dimensão estratégica: Magyar condicionou a retirada do veto a salvaguardas e manteve pública a sua oposição a um percurso de adesão acelerado. Em postagem oficial, o primeiro-ministro húngaro avisou que, caso a Ucrânia conclua todos os 33 capítulos negociais num prazo de dez a quinze anos, Budapeste convocará um referendo vinculante sobre a ratificação do ingresso.

Permanece sem resolução o embargo húngaro a produtos agrícolas ucranianos — medida que a Comissão considera incompatível com o direito da UE — e sobre a qual Bruxelas disse estar a atuar “a todos os níveis” para obter a sua revogação. Trata-se de um elemento técnico-jurídico que, se não sanado, poderá criar novos atritos e fragilizar os alicerces da diplomacia regional.

Esta movimentação de Budapeste ilustra a tectônica de poder que percorre o processo de alargamento europeu: nem sempre os avanços seguem uma linha direta, muitas vezes são resultados de negociações técnicas, concessões sobre políticas internas e reequilíbrios eleitorais. Em termos de estratégia internacional, assistimos a um lance cuidadoso — um movimento decisivo no tabuleiro que preserva, ao mesmo tempo, margens de controle e futuros instrumentos de pressão.