“Nada para os jovens sem os jovens”: Nicoletta Merlo e a estratégia do CESE para reequilibrar o orçamento intergeracional
Nicoletta Merlo alerta que a UE gasta 10x mais com idosos; pede 'nada sobre jovens sem jovens' e defende teste intergeracional para o orçamento.
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“Nada para os jovens sem os jovens”: Nicoletta Merlo e a estratégia do CESE para reequilibrar o orçamento intergeracional
Bruxelas – Em uma observação que coloca a demografia no centro da estratégia política europeia, Nicoletta Merlo, presidente do grupo jovens do Comitê Económico e Social Europeu (CESE), advertiu que a Europa está a caminho de um desequilíbrio profundo: para cada euro gasto com os jovens, gastam-se dez com os idosos. Esta assimetria, segundo Merlo, não é mera estatística, mas um sinal de alerta para a sustentabilidade das políticas públicas e para a coesão intergeracional.
Formado em 2023 para corrigir uma lacuna representativa no CESE, o grupo jovens nasceu como uma peça estratégica no tabuleiro institucional: entre 329 membros do Comitê, apenas 14 têm menos de 35 anos. Essa composição, explicou Merlo, transforma-se numa fraqueza se decisões que afetam as novas gerações forem tomadas sem o seu envolvimento direto.
Para remediar essa distorção, o Comitê foi a primeira instituição europeia a implementar o Youth Test, um mecanismo concebido para garantir que qualquer política com impacto sobre a juventude inclua a participação efetiva dos próprios jovens. “O lema é ‘niente che riguardi i giovani senza i giovani’ — nada que diga respeito aos jovens sem os jovens”, disse Merlo. Na prática, 73 organizações do network do grupo recebem mensalmente a lista de pareceres em elaboração no CESE e podem candidatar-se para contribuir, do clima à indústria.
Num encontro recente, jovens representantes de países candidatos — Albânia, Montenegro, Sérvia e Ucrânia — além de participantes da Bielorrússia, expuseram um conjunto de carências comuns. O fio condutor é a escassez de recursos: muitas organizações são quase inteiramente voluntárias e disputam fundos mínimos. Soma-se a isto o problema da mobilidade: dificuldades para obter autorizações de deslocamento limitam a participação em intercâmbios e projetos europeus.
Politicamente, Merlo tem levado adiante a questão do gasto intergeracional. Como relatora de um parecer sobre o “orçamento intergeracional”, ela defende que não basta dar voz aos jovens; é necessário redirecionar recursos e integrar um instrumento que avalie o impacto das políticas por coorte etária. Os dados que embasam sua proposta são claros: a despesa social europeia — cerca de 20% do PIB — favorece majoritariamente a população não jovem, enquanto apenas 1,7–2% é destinada a famílias e crianças.
No plano estratégico, a mensagem de Merlo configura-se como um movimento decisivo no tabuleiro da política europeia. A disputa pelo próximo Quadro Financeiro Plurianual é o espaço onde se jogará a redistribuição de prioridades. Uma avaliação intergeracional do orçamento funcionaria como uma peça de arquitetura institucional para reequilibrar recursos e evitar que a tectônica de poder entre gerações acabe por corroer os alicerces frágeis da diplomacia social.
Ao analisar as implicações, cabe observar que incorporar jovens nas decisões não é apenas uma questão de representação simbólica: trata-se de eficiência pública. Conectar o capital humano emergente — e garantir-lhe mobilidade e financiamento — fortalece a resiliência europeia perante desafios demográficos, tecnológicos e geopolíticos. Em linguagem de cartes do xadrez, não se pode proteger o rei sem desenvolver as peças na ala contrária; ignorar a juventude equivale a deixar a posição exposta.
Merlo conclui com um apelo pragmático: a Europa deve construir pontes institucionais que façam os jovens sentir-se parte da União, não apenas beneficiários passageiros. O instrumento proposto — um teste intergeracional aplicado a decisões orçamentárias e políticas — pretende ser um compasso técnico para guiar esse redesenho de prioridades. A eficácia dessa iniciativa dependerá, como sempre, de vontade política e de um acordo no próximo ciclo orçamentário.