UE aplica nova taxa sobre pacotes do e‑commerce: Temu, Shein e até Amazon na mira
UE aprova taxa para pacotes do e‑commerce; plataformas podem ser tratadas como importadoras, afetando Temu, Shein e Amazon. Impactos fiscais e logísticos.
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UE aplica nova taxa sobre pacotes do e‑commerce: Temu, Shein e até Amazon na mira
Por Marco Severini — Bruxelas. Em um movimento que redesenha, com precisão cartográfica, a arquitetura do comércio eletrônico transfronteiriço, Parlamento e Conselho da União Europeia fecharam um acordo informal sobre a revisão do código aduaneiro comunitário. A medida impõe uma nova cobrança sobre cada remessa enviada diretamente a consumidores da UE e autoriza que as plataformas de e‑commerce sejam tratadas como importadoras, com consequências tributárias e aduaneiras substanciais.
Os legisladores evitaram rotular a cobrança como um simples dazio: preferiram o termo 'nova taxa de gestão', definida para 'cobrir o custo adicional da gestão do número crescente de pacotes individuais'. Entretanto, na prática, a mudança cria uma obrigação financeira adicional para operadores que enviam bens diretamente ao mercado europeu — um impacto que atinge atores como Temu, Shein, Alibaba, AliExpress e, inevitavelmente, também players integrados como a Amazon.
A Comissão Europeia terá competência para fixar o montante dessa taxa e revisá‑lo a cada dois anos. A cobrança começará tão logo o sistema informático necessário esteja operacional, e em todo caso não mais tarde de 1º de novembro de 2026. Complementarmente, recorda‑se que, desde dezembro de 2025, a UE já adotou uma medida para pacotes de baixo valor: a partir de 1º de julho de 2026 será aplicado um tributo de 3 euros por produto importado de fora do bloco com valor inferior a €150.
As justificativas oficiais combinam preocupações de ordem fiscal, proteção ao consumidor e segurança de produto — notas que soam, em alguns discursos, como uma resposta direcionada à predominância de fornecimento de baixo custo originado da China. A Comissão calcula que, em 2025, cerca de 5,9 bilhões de artigos de baixo valor tenham entrado na UE em remessas diretas aos consumidores, com mais de 90% provenientes da China.
O acordo também prevê a criação de uma nova autoridade aduaneira da UE, com sede em Lille (França) — a EUCA — encarregada de coordenar a implementação das novas regras. Prevê‑se um hub aduaneiro gerido pela EUCA, disponível opcionalmente até 2031 e obrigatório até 2034, desenhando lentamente novos alicerces institucionais para a gestão do fluxo de mercadorias digitais.
Do ponto de vista estratégico, trata‑se de um movimento decisivo no tabuleiro: ao transformar plataformas em importadores, a UE não só recupera capacidade regulatória e fiscal sobre transações que antes escapavam aos controles tradicionais, como também reposiciona os centros de decisão e custo ao longo das rotas logísticas internacionais. Para empresas que operam modelos de marketplace, isso implica reavaliação de preços, cadeias de suprimento e compliance aduaneiro.
Enquanto o acordo informal ainda precisa ser formalmente aprovado pelo Parlamento e pelos ministros, fica claro que a tectônica de poder do comércio eletrônico internacional está a ser redesenhada — não por rupturas, mas por instrumentos legais e instituições destinadas a redesenhar fronteiras invisíveis e a reorganizar responsabilidades no fluxo global de mercadorias.