Cao Fei inaugura 'Dash' em Milão: drones, ritos e a agricultura inteligente

Cao Fei traz 'Dash' à Fondazione Prada: drones como novas divindades agrícolas e a poética da agricultura inteligente em Milão (9 abr–28 set 2026).

Cao Fei inaugura 'Dash' em Milão: drones, ritos e a agricultura inteligente

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Cao Fei inaugura 'Dash' em Milão: drones, ritos e a agricultura inteligente

Chego a esta história como uma amiga que volta de viagem com um segredo colhido ao entardecer: a artista chinesa Cao Fei estreia em Milão uma obra que cheira a terra molhada, a incenso e a eletricidade no ar. A exposição Dash abre na Fondazione Prada em 9 de abril de 2026 e fica até 28 de setembro — um convite para dolce far niente e para pensar o futuro que já chegou às plantações.

O motor do projeto é a observação delicada e curiosa da agricultura inteligente no Sudeste Asiático. Em sua pesquisa, Cao Fei acompanhou comunidades rurais onde os drones deixaram de ser meras máquinas para virar símbolos: são reverenciados como novas divindades agrícolas. Meninos e meninas amarram fitas vermelhas nos seus corpos de metal, camponeses vietnamitas acendem bastoncini de incenso em sua honra, e monges tailandeses chegam a abençoá-los — rituais que misturam fé, técnica e esperança.

Na exposição, o centro pulsante é o novo filme Dash, projetado dentro de um granaio que nos transporta à textura do passado. Ao lado, surge um pequeno templo e uma plantação de bananeiras: juntos, esses elementos formam algo como um sítio arqueológico agrícola, uma escultura vivente que lembra que o tempo da tecnologia corre mais veloz do que o nosso tempo humano. É poesia técnica, onde o zumbido de hélices se mistura ao som da seara.

Cao Fei percorreu uma longa rota — de Guangzhou a Pequim, passando pelo Sudeste Asiático até chegar aqui, a Milão — não só geográfica, mas temporal. Essa jornada aparece na obra: sobrevoos, imagens documentais e encenações que mostram como a automação transforma paisagens, modos de vida e crenças. A artista nos convida a escutar: como se ouve o motor moderno cantando sua própria oração?

Ver Dash é como experimentar um aperitivo que revela um jantar inteiro: o odor do solo, o brilho metálico dos drones, o toque das fitas vermelhas nas mãos das camponesas, a luz dourada que incide sobre folhas de bananeira. É uma exposição para ser sentida nos cinco sentidos, para perguntar e para se deixar tocar pela ambivalência — entre progresso e memória, devoção e cálculo, futuro e tradição.

Para nós, amantes das viagens que buscam os segreti locali, a mostra é um mapa sensorial. Andiamo: atravessamos imagens e objetos, e saímos com a sensação de que a tecnologia não apenas transformou o campo, ela o ritualizou de novo. A Fondazione Prada acolhe este diálogo crítico e poético, tornando Milão, por alguns meses, um ponto de encontro entre o som das hélices e o murmúrio dos altares.

Se você vier, traga curiosidade e calma. Sente-se por um instante no limiar entre o granaio e o templo, feche os olhos, e perceba o zumbido que virou canto. Ciao e buona visione.