Islândia: até eu consigo — a campanha da Icelandair que prova que a beleza exige pouca técnica
Campanha da Icelandair prova que a Islândia dispensa IA e técnica: até a ‘pior fotógrafa’ captura a beleza autêntica do país. Descubra a história.
RESUMO ✦
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Islândia: até eu consigo — a campanha da Icelandair que prova que a beleza exige pouca técnica
Como quem descobre um segredo entre amigos num aperitivo ao entardecer, deixo-vos uma história que cheira a vento salgado, vapor geotérmico e aventura despretensiosa. A Islândia volta a provar que é um país que se revela ao olhar, mesmo quando o olhar não é o mais experiente. Em cena, a atrevida campanha da Icelandair — Really Bad Photographer — que integra a série Real Unreal e desafia o culto da imagem perfeita.
Normalmente, quando uma companhia aérea procura um novo rosto para fotografar um destino, espera-se um portfólio cuidado, técnica apurada e um olho apurado. Foi justamente o oposto que destacou Blanche Mortemard, uma parisiense que se ofereceu com uma «galeria de más fotografias» e acabou por ser coroada, ironicamente, a protagonista da campanha.
Foram 127.642 pessoas que partilharam as suas imagens, numa convocatória que convidava fotógrafos amadores a mostrar a sua «falta de jeito». A aposta da Icelandair era clara: provar que a Islândia, com a sua luz única, os contrastes de cor e a textura crua da paisagem, dispensa truques digitais e até a perícia técnica. «Quando se trata de representar a Islândia em imagens, pura e simplesmente não há necessidade de IA», diz Gísli S. Brynólfsson, diretor de marketing global da companhia, explicando o fio condutor do projeto.
A campanha surge numa altura em que a confiança nas imagens online está fragilizada — erupções em Reykjanes e auroras boreais mostradas pela companhia geraram dúvidas sobre a autenticidade das fotografias. A resposta da Icelandair foi visceral e elegante: mostrar a verdade do país com olhos imperfeitos.
Blanche Mortemard nunca tinha visitado a ilha antes. Em dez dias, tirou cerca de 7.000 fotografias. «Antes de ir, já tinha visto as paisagens, os glaciares, as montanhas e as quedas de água nas imagens que circulam pela internet», confessou ela. Ainda assim, descobriu, ao vivo, uma diversidade de cenários que é impossível apreender apenas vendo fotos: campos de lava que parecem tapeçarias, cascatas que rugem como uma orquestra, o perfume metálico do ar perto das fontes termais e a luz que muda como um acorde.
A ideia da iniciativa é simples e provocadora: a própria natureza islandesa é tão contundente que até o que chamamos de «pobre técnica» captura algo de belo. Não se trata de romantizar a imperícia, mas de reafirmar que a autenticidade e a experiência sensorial do lugar valem mais do que filtros e IA. «A falta de talento de Blanche não é algo que se consiga imitar», acrescenta Brynólfsson, sublinhando que foi a singularidade do seu olhar — tremidos, enquadramentos imprevistos, detalhes que escapam aos manuais — que encantou a equipa criativa.
Para nós, que gostamos de viajar com os sentidos, há aqui uma lição de hospitalidade: a paisagem convida e acolhe, oferece-se generosa mesmo a quem não saiba tecnicamente enquadrá-la. Andiamo, diria eu — deixe-se levar. Há uma espécie de Dolce Far Niente no simples acto de apontar uma lente e ser surpreendido pelo que aparece. A campanha é um convite para redescobrir a confiança nas imagens e para permitir que o destino fale por si.
O resultado nas redes sociais foi um misto de humor, ternura e curiosidade: milhares de pessoas redescobriram a Islândia através de fotos que não pretendiam ser perfeitas, mas que captaram a essência do lugar. No final, a mensagem é clara e reconfortante: não precisamos de algoritmos para sentir a luz dourada sobre um glaciar, o cheiro do mar ao pôr do sol ou o arrepio ao ver uma aurora boreal dançar no céu.
Se está a pensar em viajar, guarde esta imagem: uma mão que treme de frio segurando uma câmara, o som do vento nas colinas de lava, um sorriso surpreso ao ver um cenário impossível. Ciao, e lembre-se: na Islândia, até eu consigo tirar uma foto que conte uma história.

