Centenário de Marisa Merz: “La danza delle ore” em três sedes de Turim
Centenário de Marisa Merz: exposição "La danza delle ore" em três sedes de Turim reconta sua visão singular e íntima da Arte Povera.
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Centenário de Marisa Merz: “La danza delle ore” em três sedes de Turim
Por Erica Santini — Ciao, viajante das artes. Em 2026 celebramos o centenário de Marisa Merz, uma artista que soube traduzir o silêncio em poesia visual. Nascida em Turim a 23 de maio de 1926 como Maria Luisa Truccato, ela adotou o sobrenome do marido, também artista, Mario Merz, e nos deixou em 20 de julho de 2019, na mesma cidade que foi seu palco e sua oficina íntima.
Para marcar este aniversário, três importantes instituições turinesas se unem num abraço curatorial: o Castello di Rivoli Museo d'Arte Contemporanea, a Fondazione Merz e a GAM - Galleria Civica d'Arte Moderna e Contemporanea di Torino. Juntas apresentam a mostra intitulada "La danza delle ore", um itinerário expositivo que vai do dia 29 de outubro de 2026 até 4 de abril de 2027, navegando pela produção singular de uma criadora difícil de rotular.
Recordo, com a delicadeza de quem saboreia um bom aperitivo, o título profético de uma exposição de 1975: "A occhi chiusi, gli occhi sono straordinariamente aperti". Essa frase resume a potência de Marisa Merz: trabalhar na solitude e, ainda assim, abrir os olhos do mundo. A sua linguagem, tocada pelo espírito do Arte Povera, floresceu em materiais humildes e gestos domésticos que, convertidos em obra, ganharam uma estranha e potente eternidade.
Andiamo: o percurso em três sedes permite ler sua obra em camadas — como quem desdobra um lenço antigo e descobre bordados e memórias. No Castello di Rivoli a experiência pode acentuar a monumentalidade e o diálogo com o espaço, enquanto na Fondazione Merz se respira a proximidade da coleção que preserva o legado da família. Já na GAM, a curadoria ressalta os encontros entre a obra de Marisa e a cena moderna e contemporânea de Turim.
É justo lembrar que, por vezes, precisamos de um aniversário para que o olhar oficial volte-se às mulheres artistas — mas celebro que esta ocasião reúna esforços para mostrar a complexidade de sua visão. As obras de Marisa Merz convidam ao Dolce Far Niente contemplativo: tapeçarias, objetos suspensos, metais trabalhados e instalações que desafiam a hierarquia entre arte e cotidiano. Ao percorrer a mostra, sinta o calor dos metais, o perfume imaginário das fibras, a textura do tempo nas paredes. É uma coreografia visual — a verdadeira La danza delle ore.
Mais do que uma retrospectiva, este conjunto expositivo propõe diálogos: entre as peças, entre as sedes, entre passado e presente. É uma oportunidade para reencontrar a capacidade de Marisa Merz de transformar o íntimo em universal, e lembrar que a cidade de Turim continua sendo um reservatório de segredos artísticos prontos a serem saboreados.
Se puder, visite as três sedes com tempo: permita que cada espaço revele um rosto diferente da artista. E, se estiver distante, guarde na memória a imagem daquela luz dourada sobre uma obra de Merz — a mesma que, em segredo, nos sussurra que a arte é, sempre, uma viagem sensorial.
Buon viaggio nella contemplação.