Le città di pianura: a viagem dos perdedores entre bares, amizades e o Cimitero Brion

Análise do filme Le città di pianura: amizade, álcool e o Cimitero Brion num retrato fiel do Veneto. Crítica técnica e observacional.

Le città di pianura: a viagem dos perdedores entre bares, amizades e o Cimitero Brion

RESUMO ✦

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Le città di pianura: a viagem dos perdedores entre bares, amizades e o Cimitero Brion

Vi o filme Le città di pianura de Francesco Sossaimi mais de uma vez. Em cada sessão, a narrativa deixou impressões diferentes — uma característica que, em reportagem, condiciono ao efeito de camadas que o cinema sugere ao espectador atento. O que segue é um raio-x do filme, resultado de apuração e de repetidas visualizações, sem floreio, apenas fatos e interpretação técnica.

Desde as primeiras cenas fica claro que o filme se organiza como um tributo silencioso a vidas que não se alinharam como planejado. O cenário é um Veneto reconhecível, povoado por bares, postos de gasolina, capannoni e rotinas de consumo alcoólico. No centro, três personagens viajam por essa paisagem: dois cinquantenários — Carlo Bianchi e Doriano — e o jovem Giulio, estudante de arquitetura interpretado por Filippo Scotti. Há ainda uma Jaguar sgangherata que funciona tanto como veículo físico quanto como metáfora de vidas desajustadas.

Os dois homens mais velhos vivem em suspensão: endividados, frequentemente nos bares, ancorados em lembranças dos anos 1990. Não buscam recomeços; repetem o ritual da "última" — a última bebida, a última desculpa, a última tentativa de adiar o retorno a uma vida convencional. Em termos de narrativa, a repetição revela-se o motor dramático: cada tentativa fracassada de encerrar um ciclo reforça a estagnação desses personagens.

O encontro com Giulio altera, sem alarde, o equilíbrio. O jovem entra na dinâmica como uma terceira força — quer crescer, busca direção, mas se vê arrastado para a lógica do duo. A promessa de uma «última» que nunca chega é o gatilho do percurso. O filme então assume a forma de road movie íntimo: não são grandes eventos que movem a trama, e sim pequenas falhas, diálogos cortados, gestos repetidos.

Há um dispositivo conceitual que atravessa a obra: a noção de utilidade marginal. O personagem do ragioniere explica, no jantar, usando uma fatia de salame, como a saciedade torna o resto dispensável. Essa ideia — técnico-econômica na superfície — é subvertida pela figura da "última", que não se explica por necessidade física, mas por um imperativo existencial. A última permanece uma promessa escorregadia, um mecanismo para atribuir sentido quando o sentido falta.

O filme faz também um uso simbólico do Cimitero Brion de San Vito, que aparece como monumento ao amor e à morte, circularidade e interseção. As formas arquitetônicas do cemitério reverberam como imagem condensada dos laços afetivos do filme: cerchi che si intersecano que remetem à permanência e ao fim ao mesmo tempo.

Enquanto repórter com décadas de experiência no terreno italiano — apuração in loco e cruzamento de fontes — reconheço no retrato do Veneto uma precisão observacional. São paisagens de periferia onde o olhar revela mais do que um mapa: um retrato social que lembra referências literárias como Volponi e, por atmosfera, ecos de Pasolini — não por citação, mas por precisão de observação das margens.

O que salva os personagens é a amizade. Não é redenção melodramática, mas uma companhia que permite continuidade. O percurso transforma os três de maneiras sutis; mudanças que não são verbalizadas, mas perceptíveis na composição das cenas finais. Le città di pianura se apresenta, portanto, como um filme simples na superfície e complexo na construção: uma sucessão de fatos brutos que formam, ao fim, um diagnóstico frio e humano sobre a forma de viver quando as certezas faltam.