A teologia do poder: De Baget Bozzo a Berlusconi e Meloni — o referendo que busca submeter a magistratura
Referendo busca submeter a magistratura ao executivo; da teologia política de Baget Bozzo à ascensão de Berlusconi e Meloni. Análise e fatos.
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A teologia do poder: De Baget Bozzo a Berlusconi e Meloni — o referendo que busca submeter a magistratura
Apuração rigorosa e cruzamento de fontes indicam que a finalidade não declarada do referendo marcado para domingo e segunda-feira é claramente subordinar a magistratura ao controle do executivo, eliminando sua condição de poder autônomo. Trata-se de uma operação política que reproduce, na variante italiana — primeiro com Berlusconi, agora com Meloni — um projeto promovido pela internacional reacionária ao longo dos últimos anos: desmontar a tradição do constitucionalismo liberal-democrático de matriz iluminista, que instituiu freios e contrapesos e a inspeção mútua entre poderes.
Esse movimento tem também uma dimensão cultural e simbólica que merece ser explicada. Esquece-se com frequência o papel do pensador italiano que aplicou um vocabulário teológico ao raciocínio político, transformando o ato eleitoral em rito de santificação do eleito. Refiro-me ao conterrâneo Baget Bozzo, politólogo e sacerdote cuja produção atravessou o debate público italiano por décadas.
Bozzo usou no debate político imagens e categorias religiosas: a ideia de que o voto atua como um lavacro capaz de purificar e conferir uma espécie de unção ao governante — um expediente retórico que converte a legitimidade democrática em aura sagrada. Essa linguagem ecoa tradições históricas em que a Igreja sancionava a aliança entre trono e altar, conferindo legitimidade sobrenatural a figuras como Constantino ou Carlos Magno. O historiador Marc Bloch já descrevera a ritualidade do “toque régio” como instrumento simbólico para afirmar direitos dinásticos em contextos de disputa.
Hoje, em uma fase que podemos qualificar de regressiva do debate público, essas superstições pré-modernas ressurgem na propaganda política: a eleição transforma-se em selo que autoriza poderes ilimitados. O resultado prático é o enfraquecimento das garantias contra deriva autoritária, num momento em que cresce o culto da liderança única — o governante sozinho no comando.
O efeito é previsível: pressa legislativa, delegação de competências à figura eleita e desvalorização da transparência, do debate público e dos mecanismos de controle. A vocação para a concentração do poder encontra legitimidade em narrativas que remobilizam a linguagem sagrada do mando. Não por acaso, escritos e interlocuções de Bozzo apontavam para uma busca contínua de figuras paternas e de referências autoritárias, trajetórias que acabaram por influenciar, em diferentes graus, setores do quadro político italiano das últimas décadas.
O que está em jogo no referendo não é apenas uma disputa jurídica: é uma batalha pelo sentido da soberania e da representação. Se prevalecer a lógica que subordina a magistratura ao executivo, o sistema de freios e contrapesos sofrerá um golpe estrutural, com consequências duradouras para o funcionamento do Estado de direito.
Ao relatar este quadro, o compromisso é com os fatos brutos e com a clareza: o debate público exige precisão conceitual e histórica para desmontar a retórica que pretende transformar decisão eleitoral em unção. A realidade traduzida é esta: há um esforço concertado, em níveis nacionais e transnacionais, para remodelar o espaço democrático em nome de uma concepção de poder que mistura política e sacralidade.


