Alessio Boni: o resultado do referendo dá esperança; **jovens** são nossa única possibilidade, diz ator em 'Don Chisciotte'
Alessio Boni estreia em 'Don Chisciotte' e vê no resultado do referendo e nos jovens um sinal de esperança; leitura do clássico como metáfora contemporânea.
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Alessio Boni: o resultado do referendo dá esperança; **jovens** são nossa única possibilidade, diz ator em 'Don Chisciotte'
Alessio Boni, ator natural de Bérgamo e figura conhecida do cinema e do teatro italiano, apresenta uma leitura urgente e sóbria de Don Chisciotte no novo filme dirigido por Fabio Segatori. Em entrevista após a estreia no Capitol, realizada em 8 de abril, Boni descreve a figura de Cervantes como uma parábola contemporânea e reafirma uma convicção política: o recente referendo devolve alguma esperança e os jovens permanecem a única possibilidade de renovação.
O filme, realizado ao longo de cinco anos por Segatori — diretor 64 anos, de origem viterbesa, que produziu e escreveu o roteiro em parceria com a esposa Paola Columba — traz ao cinema uma versão que privilegia a materialidade e o corpo do intérprete. As filmagens ocorreram na Calabria e na Lucania, culminando com a última cena rodada na mesma praia do alto Jônico onde o ator recorda ter vivido momentos pessoais decisivos.
Na passagem do palco para a tela, Boni repetiu um percurso intenso: foram 215 récitas teatrais de um espetáculo inspirado nas 1.300 páginas do romance de Cervantes. O ator resume a sua leitura em termos cristalinos e sem floreios: para ele, Don Chisciotte é um “Cristo laico”, cuja trajetória funciona hoje como metáfora insistente. «É um herói que enfrenta batalhas necessárias — luta por um mundo melhor. Os mulinos representam a insolência do poder», disse Boni, em tom direto e técnico, próprio de quem prioriza os fatos brutos.
Na sua avaliação, o caráter aparentemente ingênuo do personagem — «tem um candor fanciullesco, vê o mundo com olhos inocentes» — não o torna menos revolucionário. Pelo contrário: o exemplo donchisciottesco, observa o ator, ensina a recusar «a realidade embalad a pelo sistema» e a reivindicar outra forma de percepção coletiva.
O filme atravessa, portanto, a dimensão íntima e a pública. Boni relatou episódios pessoais que se entrelaçam com o processo criativo: três filhos nascidos durante turnês — Lorenzo, Riccardo e Francesco —, menções a momentos de rodagem em Trebisacce e a emoção da plateia infantil. Lorenzo, de sete anos, assistiu ao filme no festival de Bari e chorou com a morte do «Cavaliere dalla trista figura», incapaz de aceitar uma vida sem sonho — reação que Boni descreve sem teatralidade: «Expliquei que eu estava vivo ao lado dele, mas para uma criança aquele personagem morre.»
Política e cultura se cruzam na leitura final do ator. A propósito do referendo recente, Boni afirmou ver ali «esperança», sinalizando uma confiança pragmática no engajamento cidadão. «Os jovens são a nossa única possibilidade», declarou, sem truques retóricos. Em sua visão, o quadro italiano e global permanece sombrio, tornando ainda mais indispensável o papel das novas gerações na recomposição do debate público.
Do ponto de vista jornalístico, a obra de Segatori com Boni exige atenção por duas razões: primeiro, por recuperar um mito literário em termos reconhecíveis e politizados; segundo, por propor uma atuação que é, simultaneamente, exercício físico e proposição intelectual. Para o espectador interessado em ver o clássico reatribuído ao presente, o filme oferece uma leitura limpa, direcionada e sem concessões sentimentais — a realidade traduzida por meio do enredo de Cervantes e da precisa corporeidade de Boni.
Em linhas finais, a mensagem do ator é objetiva: preservar os sonhos públicos — ou seja, a capacidade de imaginar alternativas — é o gesto político mais urgente. E, nesse esforço, depositar expectativas nos jovens não é retórica: é estratégia de sobrevivência democrática.