Morre Carlo 'Carlin' Petrini, fundador do Slow Food que transformou o conceito de 'comida justa'

Morre Carlo 'Carlin' Petrini, fundador do Slow Food; legado inclui Terra Madre, Universidade de Pollenzo e mais de 1 milhão de ativistas no mundo.

Morre Carlo 'Carlin' Petrini, fundador do Slow Food que transformou o conceito de 'comida justa'

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Morre Carlo 'Carlin' Petrini, fundador do Slow Food que transformou o conceito de 'comida justa'

Carlo Petrini, conhecido mundialmente como Carlin, morreu na noite de 21 de maio de 2026, aos 76 anos. Da pequena Bra, nas Langhe de Cuneo, ele lançou um movimento que alterou de forma duradoura a percepção pública sobre alimento, produção e política: o Slow Food. A trajetória de Petrini converteu hábitos, políticas e discursos, transformando o alimento em pauta pública.

O legado organizacional que leva sua marca é hoje uma estrutura global: mais de um milhão de ativistas e mais de 10 mil projetos em cerca de 160 países trabalham com a rede que nasceu da sua iniciativa. A atuação de Petrini enquadrou o alimento como questão de justiça ambiental, econômica e cultural — o que ele sintetizou na ideia do "cibo giusto", traduzível como comida ou alimento justo.

Jornalista, escritor e agitador cultural, Petrini iniciou o processo que se tornaria Slow Food em 1986, com a fundação da Arcigola, rapidamente transformada em Slow Food Itália. O passo internacional ocorreu em 9 de dezembro de 1989, quando o Manifesto Slow Food foi assinado em Paris por mais de vinte delegações de diferentes países; Petrini foi eleito presidente, cargo que ocupou até 2022.

No campo acadêmico, é dele a iniciativa da Universidade de Ciências Gastronômicas de Pollenzo (Bra), primeira universidade no mundo com abordagem interdisciplinar dedicada ao estudo do alimento. Desde a sua criação, a instituição formou cerca de 4 mil profissionais vindos de cerca de 100 países, segundo balanços da própria universidade.

Em 2004, Petrini criou a rede Terra Madre, que agrega pequenos produtores agrícolas, pescadores, artesãos, cozinheiros, jovens e acadêmicos. Terra Madre tornou-se o centro de coordenação cultural e política do movimento, um contraponto à globalização industrializada do alimento e um instrumento de valorização da biodiversidade e dos saberes locais.

Reconhecimentos internacionais acompanharam sua carreira: em 2004 foi apontado como 'Herói Europeu' pela revista Time e, em janeiro de 2008, figurou entre as 50 pessoas que poderiam salvar o mundo, segundo o jornal britânico The Guardian. Sua interlocução alcançou instâncias religiosas e políticas; manteve diálogo aberto com o Papa Francisco e relações notórias com figuras como o então Príncipe de Gales.

Além das estruturas citadas, Petrini impulsionou projetos concretos que articulam produção e justiça social: os Orti in Africa, o programa Orto in Condotta, a Arca do Gosto e os Presídios Slow Food, todos voltados a preservar variedades locais, saberes culinários e meios de subsistência de produtores familiares.

Em 2017, em parceria com o então monsenhor Domenico Pompili, hoje bispo de Verona, fundou as Comunità Laudato Sì', rede de cerca de 80 iniciativas territoriais que articulam fé, ecologia e ação comunitária em consonância com a encíclica do Papa Francisco.

Autor de diversos ensaios, entre eles "Terrafutura – Diálogos com o Papa Francisco sobre ecologia integral", Petrini foi um estrategista que levou o debate sobre alimentação para o centro das políticas ambientais e sociais. Sua presença em conferências, universidades e encontros de Terra Madre o tornou referência incontornável para quem trabalha com sustentabilidade alimentar.

Esta reportagem foi produzida com base em apuração in loco e cruzamento de fontes públicas e institucionais. Os fatos aqui reunidos são os elementos brutos da sua trajetória: da Bra ao mundo, a construção de um movimento que converteu a comida em pauta política e colocou vozes periféricas no mapa da política alimentar global.

O campo que Petrini ajudou a estruturar permanece ativo e com desafios práticos: proteger pequenos produtores, preservar diversidade genética de alimentos e consolidar modelos de consumo e produção que sejam, de fato, bons, limpos e justos. A morte de Carlo Petrini é, para esse ecossistema, tanto um ponto final quanto um chamado à continuidade das práticas que ele organizou.