23 de maio de 1992: o «Cunto» de Salvo Piparo revive o estrondo que marcou Palermo
Salvo Piparo revive o estrondo de 23/05/1992 em Palermo com seu 'Cunto', entre memória, tradição oral e identidade siciliana.
RESUMO ✦
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23 de maio de 1992: o «Cunto» de Salvo Piparo revive o estrondo que marcou Palermo
Em uma narrativa que mistura tradição oral e memória coletiva, o Cunto de Salvo Piparo volta-se para a ferida aberta de Palermo: o estrondo daquela manhã de 23 de maio de 1992, quando uma explosão na autoestrada deixou um cratera de tritolo e mudou para sempre a paisagem emocional da cidade.
“Pasquale e Santino estavam no carro, indo de Palermo para um dos muitos povoados, para experimentar o automóvel e comer um sorvete: Santino tinha feito um bom trabalho como fontaniere e Pasquale queria premiá‑lo com um passeio na Lancia vermelha. Entraram na autoestrada e passaram as filas de carros importantes, entrando na galeria. Ali ouviram o estouro, enorme, que fez as mãos tremerem”, conta Piparo em seu relato, recolhido em primeira mão e transformado em peça teatral.
No palco do Oratorio San Mercurio, com lotação esgotada em três sábados seguidos, o ator popular e visceral transforma esse episódio em um espelho do nosso tempo: não para dramatizar a tragédia, mas para puxar o fio da memória e revelar o roteiro oculto da cidade. A cena do carro que segue e deixa para trás apenas macerie funciona como metáfora da resistência cotidiana. Eles percebem que algo inverossímil aconteceu, olham para trás e veem ruínas; decidem seguir adiante acreditando, em pensamento, que sobreviveram porque nunca falaram muito — ou porque sempre sentiram menos do que falaram.
O relato, recebido do próprio protagonista, o senhor Santino — um fontaniere do mercado de Ballarò — devolve à narrativa o caráter autêntico de Palermo. Para Piparo, é justamente essa paisagem mental e social que retorna ao foco: as estruturas de extorsão e a presença difusa da mafiosidade, hoje mutada, mas ainda perceptível nos retalhos do cotidiano.
“Meu espetáculo não é mero entretenimento nem uma comédia”, explica o artista. “É um exercício de convivência com a palavra que leva a reflexões sérias. Rendo homenagem a uma alma verdadeira da cidade, a uma poética que tem se desbotado com o tempo.” A proposta de Piparo é recolher tradições — orais e teatrais — mantendo a métrica grega: no espetáculo, o canto e a lira grega ficam a cargo de Margherita Liotta, reforçando o elo com a identidade siciliana e com a língua palermitana. Falar palermitano é, para ele, falar as línguas dos povos que passaram por lá.
Entre língua e comida — esta última sempre antecedida pela linguagem, que passa antes de chegar ao estômago — Piparo recupera pratos, ditos e personagens de outrora para sentar a cidade sobre suas próprias memórias. O resultado é um rito cênico onde o público experimenta a sensação de revisitar um arquivo afetivo: a cidade como cena, a lembrança como ator.
Como observadora do zeitgeist, digo que este trabalho opera como um reframe da realidade: não apenas reconta, mas reorganiza lembranças em formas que nos forçam a enxergar o porquê por trás do feito. Em tempos em que tudo tende à caricatura da própria caricatura, o Cunto de Salvo Piparo propõe um retorno às origens narrativas, um espelho que nos obriga a olhar a nossa relação com o passado — e com as vozes que o atravessam.