Biennale de Veneza vira palco de tensão: Pussy Riot protesta e embaixador russo acusa 'diktat' da UE

Pussy Riot protesta na Biennale de Veneza; embaixador russo acusa 'diktat' da UE enquanto debates sobre liberdade artística se acirram.

Biennale de Veneza vira palco de tensão: Pussy Riot protesta e embaixador russo acusa 'diktat' da UE

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Biennale de Veneza vira palco de tensão: Pussy Riot protesta e embaixador russo acusa 'diktat' da UE

Por Chiara Lombardi — Em um cenário que mistura arte, diplomacia e confrontos simbólicos, a 61ª Exposição Internacional de Arte da Biennale de Veneza teve hoje mais um capítulo carregado de significado político. Enquanto a presidente do Conselho, Giorgia Meloni, reafirmava a autonomia da Fundação Biennale — «la Fondazione Biennale di Venezia è autonoma» —, vozes de protesto e de acusação ecoavam pelos Giardini.

No Teatro Piccolo dell'Arsenale, o presidente da Fondazione, Pietrangelo Buttafuoco, defendeu a centralidade da liberdade e da audácia como pilares da «civiltà del diritto», contrapondo-os a estatutos morais que, segundo ele, transformam a lei em instrumento de um grupo restrito. «Andare avanti e avere audacia e sviluppare in libertà i vostri progetti», relembrou, citando o mandato expresso do chefe de Estado em favor da liberdade artística. Com ironia e firmeza, Buttafuoco sublinhou: «A Venezia non abbracciamo le armi, prepariamo la pace» — uma frase que, entre aplausos, funcionou como manifesto contra a espetacularização do conflito.

Mas a praça de manifestações não era apenas retórica. Nas áreas reservadas aos jornalistas, um grupo conhecido deslocou a discussão para a rua: as Pussy Riot, o coletivo punk russo célebre por performances que desafiam o poder, desembarcaram nos Giardini com seus icônicos passam-montanhas fúcsia, slogans contra Putin, fumígenos nas cores da Ucrânia e ações que incluem desnudamento parcial como forma de denúncia. Ao lado delas, ativistas das Femen — movimento feminista originado em Kiev — se uniram ao protesto. A ação, planejada com desvios táticos e surpresa, tentou invadir o pavilhão russo e foi contida por policiais; segundo relatos, sem violência.

O episódio ocorre justamente no dia em que o embaixador da Rússia na Itália, A.V. Paramonov, inaugurou o pavilhão russo e externalizou em sua página no Facebook um ataque frontal ao que chamou de obsessão da UE em perseguir a cultura russa com sanções e restrições, qualificando essa perseguição como «morbosa e irracional» e criticando a liderança italiana e a direção da Biennale.

O contraste é nítido: de um lado, a defesa institucional da autonomia cultural e da liberdade artística; do outro, o protesto performativo que transforma o pavilhão num palco de denúncia política. O episódio em Veneza atua como um espelho do nosso tempo — onde a arte não é apenas estética, mas um roteiro oculto que revela tensões geopolíticas, memórias e responsabilidades éticas. Há, aqui, uma semiótica do viral: o ato performático quer deslocar a narrativa, obrigar o público a olhar para além do verniz institucional e questionar a conveniência de acolher um Estado cuja política externa e interna é alvo de controvérsia.

Enquanto as mostras permanecem abertas apenas a jornalistas e profissionais até a data de abertura ao público, marcada para 9 de maio, a Biennale se vê no epicentro de uma discussão que não será dissolvida por cortinas de museu. A interseção entre diplomacia, liberdade artística e ativismo coloca Veneza como um cenário de transformação, onde cada obra e cada protesto dialogam — e conflitam — com a narrativa histórica europeia e global.

Em suma, a Biennale de 2026 se apresenta não só como exposição, mas como arena: a autonomia reivindicada pela instituição, a crítica direta de artistas e ativistas e as acusações diplomáticas entram em cena como atos de um mesmo espetáculo cívico. Resta ao público interpretar esse enredo multifacetado — e perguntar-se: que tipo de liberdade queremos proteger quando a arte se transforma em acusação?