Cannes 2026: Koreeda, Sorogoyen e James Gray lideram a corrida pela Palma entre memória, IA e crime

Cannes 2026: Koreeda, Sorogoyen e James Gray disputam a Palma com filmes sobre luto, IA e laços familiares. Destaques e análises culturais.

Cannes 2026: Koreeda, Sorogoyen e James Gray lideram a corrida pela Palma entre memória, IA e crime

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Cannes 2026: Koreeda, Sorogoyen e James Gray lideram a corrida pela Palma entre memória, IA e crime

Hoje, sábado 16 de maio, o Festival de Cinema de Cannes projeta três obras que sintetizam os temas centrais desta edição: luto, identidade e os laços que nos definem. Em competição pela Palma d'Oro estão Sheep in the Box de Koreeda Hirokazu, El ser querido (The Beloved) de Rodrigo Sorogoyen e Paper Tiger de James Gray. Três autorias distintas que, juntas, formam um panorama rico — um verdadeiro espelho do nosso tempo.

Na seção Un Certain Regard, destaque para Mémoire de fille (A Girl’s Story) de Judith Godrèche e para Siempre soy tu animal materno (Forever Your Maternal Animal) de Valentina Maurel, propostas que aprofundam questões íntimas e femininas com tonalidades formais variadas.

Em Cannes Classics, estreia o documentário Vittorio de Sica - la vita in scena, dirigido por Francesco Zippel, única longa-metragem de um realizador italiano na Croisette nesta edição. Na mesma seção, a Titanus apresenta a versão restaurada em 4K de La Ciociara (1960), relembrando a força da tradição cinematográfica italiana.

Entre os eventos especiais, chama atenção a apresentação para Cinema on the Beach da cópia restaurada de um cult, Un homme et une femme de Claude Lelouch, com a presença do diretor na projeção — um momento que remete ao diálogo entre memória coletiva e rito festivo do festival.

As tramas em disputa

Sheep in the Box (Koreeda Hirokazu). Ambientado num futuro próximo, o filme acompanha um casal enlutado que acolhe um humanoide com a mesma aparência e voz do filho que perderam. A presença da IA aqui não é apenas dispositivo narrativo: funciona como um refrão que nos obriga a repensar memória, substituição afetiva e a estética do luto. Koreeda, conhecido por dissecar relações familiares com delicadeza, transforma a tecnologia num espelho da nossa fragilidade emocional.

El ser querido (The Beloved) (Rodrigo Sorogoyen). Esteban Martínez, cineasta fictício de grande renome dentro da narrativa, volta à Espanha para rodar um novo filme e oferece o papel principal a uma jovem atriz desconhecida — sua filha, que não vê há treze anos. A premissa explora o encontro entre representação e realidade: durante as filmagens, a atriz enfrenta um homem que sempre lhe foi estranho e ausente. Sorogoyen, cuja obra frequentemente investiga o tenso terreno entre verdade e encenação, propõe aqui um estudo sobre paternidade, culpa e a teatralidade das relações familiares.

Paper Tiger (James Gray). No drama intenso de Gray, dois irmãos se veem enredados num plano sedutor demais para ser verdadeiro. À medida que se aprofundam no perigoso universo da máfia russa, os laços fraternos começam a ruir, delineando um roteiro sobre lealdade e colapso moral. A crise familiar servida como mapa para entender as dinâmicas do poder e da sobrevivência.

Na soma desses títulos, o festival desenha um roteiro oculto: o cinema volta a ocupar-se do íntimo como forma de política — seja pela lente da tecnologia, seja pelo revés da memória e das hierarquias familiares. Como observadora cultural, vejo nessa seleção um eco cultural que reframe a realidade contemporânea: a IA não é vilã nem solução, é metáfora; a paternidade ausente ressoa como trauma estrutural; e o crime funciona como litmus da desintegração dos afetos.

Esta sexta-feira em Cannes reafirma que a Croisette continua a ser um laboratório onde a linguagem cinematográfica testa novos modos de traduzir o humano. A aposta do festival em restaurar clássicos ao lado de obras que sondam as fronteiras tecnológicas confirma um diálogo entre passado e presente: cinema como memória viva e também como espelho do nosso tempo.