Cannes 2026: o dia de Moulin, Hope e Garance — Rendez‑vous com Cate Blanchett

Cannes 2026: Moulin, Hope e Garance disputam a Palma; encontro com Cate Blanchett e documentário sobre Richard Avedon no roteiro do dia.

Cannes 2026: o dia de Moulin, Hope e Garance — Rendez‑vous com Cate Blanchett

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Cannes 2026: o dia de Moulin, Hope e Garance — Rendez‑vous com Cate Blanchett

Em mais um dia de brilho e densidade no Festival de Cannes, o programa de domingo, 17 de maio de 2026, entrelaça cinema, moda, fotografia e cultura visual, como um colagem que revela o espelho do nosso tempo. Em competição pela Palma d'Oro estão três títulos que dialogam com história, vício e catástrofe: Moulin do húngaro László Nemes, Garance da francesa Jeanne Herry e Hope do sul‑coreano Na Hong‑Jin, este último com a presença — na tela e fora dela — de Michael Fassbender e Alicia Vikander como um casal tanto no enredo quanto na vida pública. Fora de competição, ganha espaço na Salle Agnès Varda o documentário de Ron Howard dedicado ao fotógrafo Richard Avedon, fechando o dia num cruzamento entre imagem e biografia.

No palco do festival, uma figura global domina a atenção: Cate Blanchett. Em uma edição com uma presença menos massiva das estrelas de Hollywood, sua aparição no tradicional Rendez‑vous com o público funciona como um espelho: a celebridade que não distrai do cinema, mas que oferece outro ponto de leitura — a performance do eu público como matéria cultural.

Moulin, estrelado por Gilles Lellouche, Lars Eidinger e Louise Bourgoin, transporta o público para junho de 1943. A narrativa acompanha Jean Moulin, líder da Resistência francesa, enquanto tenta unificar as diversas forças da clandestinidade. Preso durante essa missão, Moulin é interrogado por Klaus Barbie, o chefe da Gestapo em Lyon, e lançado numa pugna implacável. O filme de Nemes promete transformar a memória histórica em um combate moral e estético contra a manipulação e a brutalidade — um verdadeiro reframe da memória coletiva.

Garance reúne Adèle Exarchopoulos, Sara Giraudeau e Sarajeanne Drillaud em torno de uma protagonista em ebulição. Garance é uma jovem atriz cujo magnetismo e talento ainda não receberam o reconhecimento almejado. Entre quartos parisienses apertados e relações passageiras, surge uma ansiedade crescente e a sombra do alcoolismo. Em meio ao caos, a devoção pela irmã mais nova doente e uma ternura romântica com Pauline oferecem uma âncora frágil. A obra de Jeanne Herry pinta a crise íntima como um roteiro oculto da sociedade: espetáculo, consumo e vulnerabilidade emocional.

Hope amplia o campo para uma tragédia quase mitológica. Com Hwang Jung‑min, Zo In‑sung, Jung Ho‑yeon, Taylor Russell, Cameron Britton, Alicia Vikander e Michael Fassbender no elenco, o filme começa com reforços desviados para combater incêndios florestais e todas as comunicações cortadas. O chefe de polícia de Hope, Bum‑seok, e a agente Sung‑ae tentam defender uma aldeia de idosos enquanto, nas montanhas, Sung‑ki e os moradores que perseguem uma criatura se tornam eles próprios caçados. O que se inicia em ignorância converte‑se em desastre e, por meio do confronto humano, desdobra‑se em uma tragédia de proporções quase cósmicas — uma alegoria contemporânea sobre medo e responsabilização.

Ao fim do dia, a projeção de Ron Howard sobre Richard Avedon na Salle Agnès Varda reforça o fio condutor visual do programa: como a imagem (fotográfica ou filmada) modela identidades e memórias. Cannes, neste ponto, funciona como um observatório do zeitgeist — onde o entretenimento, longe de ser superfície, revela as fissuras e as narrativas que nos definem.

Como quem assiste a um filme premiado num café em Milão, o espectador é convidado a olhar além da superfície: cada obra do dia é um espelho, um roteiro íntimo e coletivo que interroga violência, dependência e preservação. O festival mostra, novamente, que o cinema é less uma vitrine do star system e mais um mapa para entender conflitos e desejos do presente.