Enzo Avitabile recebe o Premio Tenco à carreira: “Um dos dias mais lindos da minha vida”
Enzo Avitabile recebe o Premio Tenco à carreira em Sanremo: seis décadas entre tradição, pesquisa, Neapolitan Power e compromisso civil.
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Enzo Avitabile recebe o Premio Tenco à carreira: “Um dos dias mais lindos da minha vida”
Por Chiara Lombardi — Em um gesto que opera como um espelho do nosso tempo, onde memória e inovação se encontram, Enzo Avitabile celebra seis décadas de travessia musical ao receber o Premio Tenco à carreira no Teatro Ariston, em Sanremo. Aos 71 anos, o músico traça um mapa íntimo e coletivo: da infância nas ruas de Nápoles à construção de uma linguagem que funde tradição, pesquisa e compromisso civil.
Encontrei Avitabile poucas horas antes de subir ao palco. Em suas palavras, o prêmio representa “um reconhecimento importante de uma vida dedicada à música” — não apenas à melodia, mas ao cuidado com os textos e à curiosidade sonora. “Sinto que é um dos dias mais bonitos e importantes da minha carreira”, disse ele, em uma frase que parece pertencer a um roteiro em que a vida real retorna à cena.
Questionado sobre qual canção contaria sua história, Avitabile sorriu e confessou a impossibilidade de reduzir uma trajetória inquieta a uma única faixa. É característica dessa carreira tocar tudo: “música escrita, sinfônica, instrumental, a forma canção, a música popular e aquilo que depois chamaram de world music”. Essa amplitude é o que torna sua obra um reframe da realidade cultural napolitana e além.
No Ariston, o artista propôs uma performance construída em quatro pilares essenciais — palavra, som, gesto e dança —, apresentando canções como “Don Salvatò”, “Tutte quante so' creature”, “Thalassa Cardia” e “Napoli Nord”. Este último é um abraço à sua origem: a Nápoles que não está sempre em primeiro plano, mas que irrigou fortemente a música local.
Ao evocar bairros como Marianella, Miano e Piscinola, Avitabile não fala apenas de lugares geográficos, mas de territórios de formação. Esses bairros, cada um com identidade própria, foram o ventre do movimento apelidado de Neapolitan Power, que combinou a tradição napolitana com o rhythm & blues americano. “Com a música plantamos uma flor que cresceu e virou algo maior”, lembrou — uma metáfora de como pequenas cenas locais podem desenhar um novo mapa cultural.
Interessante é perceber como Avitabile vê a nova geração: não na lógica do hereditarismo, mas na continuidade criativa. Ele cita com afeto nomes como La Niña, Nu Genea, Ntò, Roberto Colella, Tommaso Primo, Dario Sansone e Ciccio Merolla. Para ele, são “depositários de uma palavra e de uma tradição que continua a evoluir” — sinal de que a cena partenopea permanece viva, em diálogo com sua história e aberta a contaminações.
O reconhecimento do Premio Tenco atua como uma ordenação simbólica: valoriza tanto a pesquisa musical quanto a densidade poética. Avitabile leva ao público não só canções, mas um roteiro oculto que atravessa memória, territorialidade e um compromisso que transcende o entretenimento. Em sua trajetória, a música torna-se, assim, um dispositivo de leitura do presente — um eco cultural que insiste em nos lembrar de onde viemos para imaginar adiante.
Ao final do encontro, restou a sensação de que a premiação não é apenas um ponto de chegada, mas um espelho para novas perguntas: como as raízes continuam a se transformar em diálogo com o mundo? E qual será o próximo ato dessa carreira que, como um bom filme, segue revelando camadas sucessivas de sentido?

