Fabri Fibra no Premio Tenco: por que o rap consciente virou voz do nosso tempo

Fabri Fibra estreia no Premio Tenco: o rap conscious conquista o cantautorato e ecoa nas ruas entre protestos e homenagens a Guccini.

Fabri Fibra no Premio Tenco: por que o rap consciente virou voz do nosso tempo

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Fabri Fibra no Premio Tenco: por que o rap consciente virou voz do nosso tempo

Por Chiara Lombardi – Em uma presença que simboliza uma pequena revolução de consensos, Fabri Fibra chega pela primeira vez ao Premio Tenco e, também pela primeira vez, ao palco do Ariston em Sanremo. O rapper das Marche participa da noite final da rassegna dedicada ao cantautorato, onde dividirá o palco com Frankie Hi-Nrg Mc (vencedor do prêmio Carreira) em 'Autodafé', interpretará uma versão de 'L’Avvelenata' em homenagem a Francesco Guccini — falecido em agosto — e apresentará 'Goya', seu single de verão com os Pinguini Tattici Nucleari.

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Na conversa com a imprensa, Fibra não só confirma a naturalidade desse encontro entre rap e canção de autor, mas também traça um diagnóstico cultural preciso: o rap conscious tem conquistado credibilidade como forma de escrita autoral. "A credibilidade é o superpoder do artista", disse ele, lembrando que o crescimento do gênero é visível em públicos, orçamentos, contratos e presença nas paradas. Para Fibra, o que chega ao Tenco é exatamente essa vertente do rap que se aproxima do cantautorato quando existe veracidade.

O artista também falou sobre sua própria trajetória: dos discos iniciais de provocação, quase como um terremoto na discografia, à necessidade de encontrar novas linguagens ao ultrapassar os 40 anos. "Eu queria fazer música para os quarentões", explicou, não por nostalgia, mas por responsabilidade narrativa. Nesse reframe, ele diferencia a trap — "uma música de vinte anos para quinze anos" — do rap que busca retratar a rotina de quem trabalha, paga contas e convive com a realidade cotidiana. "Eu quero contar quem enfrenta o dia a dia", afirmou, pontuando a escolha estética como reflexo de uma mudança biográfica e social.

Sobre a dimensão social e política do rap, Fibra reconhece que o gênero perdeu parte de sua agressividade antissistêmica ao se inserir no circuito mainstream, mas mantém seu papel essencial: provar que não é necessária uma formação musical erudita para transmitir uma história potente. E, no cenário atual, essa narrativa ganha contornos concretos nas ruas. Comentou com surpresa que as protestas dos jovens contra o carovita — inflação e aumento do custo de vida — tenham estourado apenas agora, quando, na sua leitura, as tensões já vinham fermentando. Sua canção 'In Italia' voltou a ecoar nas praças, prova de que certas músicas funcionam como espelhos de um tempo e catalisadores de indignação.

Fibra também comentou o disco construído com Neffa, 'Zarathustra Style', conversando sobre colaboração e interseção entre trajetórias musicais, e relembrou uma estreia que não se realizou: ele deveria estrear no Ariston na noite dos duetos com Baby Gang em 2024, participação que acabou cancelada por problemas judiciais do parceiro. Não faltou, ao final, uma pitada de humor cultural, com uma citação emprestada de Guccini sobre o Festival.

Como analista cultural, vejo essa movimentação como mais do que um convite formal: é um reconhecimento de que o rap tornou-se um dispositivo narrativo capaz de traduzir frustrações geracionais e redesenhar o mapa da canção de autor. O encontro no Tenco funciona como um espelho do nosso tempo, onde o roteiro oculto da sociedade aparece nas rimas e nos refrões, e onde a credibilidade — essa espécie de verniz ético-cultural — decide quem atravessa a fronteira entre entretenimento e documento social.

Fabri Fibra no Tenco, portanto, não é apenas um show; é um sinal de transformação: o rap conscious se impõe como linguagem de memória coletiva e comentário político, enquanto as praças continuam a bater no pulso de um país que busca ouvir a própria voz.

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