Fausto Brizzi lembra Fulvio Lucisano: o produtor que mudou sua vida e o fim de uma era
Fausto Brizzi lembra Fulvio Lucisano, produtor que mudou sua carreira; reflexão sobre o fim da era dos grandes produtores do cinema italiano.
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Fausto Brizzi lembra Fulvio Lucisano: o produtor que mudou sua vida e o fim de uma era
Em uma lembrança carregada de gratidão e análise cultural, o diretor Fausto Brizzi contou à Espresso Italia como o mítico produtor Fulvio Lucisano foi decisivo em sua trajetória — e deixou claro que com ele se fecha um capítulo na história do cinema italiano. Lucisano morreu hoje aos 98 anos, e o depoimento de Brizzi é tanto um tributo pessoal quanto um diagnóstico sobre o mercado cinematográfico contemporâneo.
“O seu superpoder? O faro”, disse Brizzi. “Ele me mudou a vida.” A colaboração começou com o fenômeno de público Notte prima degli esami (2006), seguido por Notte prima degli esami - Oggi (2007), Maschi contro femmine (2010) e Femmine contro maschi (2011) — entre outros projetos que, segundo o diretor, somaram cinco sucessos realizados em parceria. Para Brizzi, existe um claro “antes e depois”: o primeiro filme marca uma transformação identitária para qualquer cineasta, e foi Lucisano quem acreditou nessa mudança.
O episódio-chave permanece vívido: ninguém queria dirigir aquele roteiro, até que Lucisano perguntou ao jovem Brizzi: “Ma perché non lo fai tu?”. Essa pergunta, e a escolha de aceitá-la, foi descrita pelo diretor como o verdadeiro ponto de inflexão — o roteiro oculto da sua carreira que virou imagem na tela.
Brizzi também destacou o lado humano e o legado de Fulvio Lucisano. Além de empresário sagaz, Lucisano soube preparar a sucessão: as filhas e produtoras Federica e Paola já trabalhavam ao seu lado, e Federica acompanhou justamente o primeiro filme de Brizzi, numa espécie de continuação geracional. “Não é óbvio um empresário deixar em herança não apenas uma empresa, mas um trabalho verdadeiro”, observa o diretor — uma reflexão que toca o tema do tempo e da memória institucional no cinema.
Mas o que esse episódio nos diz sobre o estado atual do cinema? Brizzi faz uma crítica direta: teme que a era dos grandes produtores que “suscitavam apostas” e “defendiam o filme até o fim” esteja terminando. Hoje, argumenta, o que antes eram decisões de uma figura com faro e responsabilidade passa a ser um mecanismo técnico. “Antes o algoritmo era o produtor: decidia se um filme se fazia ou não, e depois o defendia até o fim. Hoje o algoritmo te dá feedbacks no caminho”, disse, apontando um reframe importante: a produção cultural como processo mediado por dados, e não apenas por intuições humanas.
Na voz de Brizzi, ouve-se a perda de uma espécie de guardião do cinema — aquele que não apenas financia, mas acredita, protege e molda carreiras. Em termos simbólicos, a partida de Fulvio Lucisano representa o desaparecimento de um tipo de protetor autoral e a entrada definitiva de novos roteiros de produção, mais difusos e técnicos. É o espelho do nosso tempo: mudança de protagonistas, novos protocolos e, ainda assim, a necessidade humana de quem tenha o olhar e o risco de apostar em vozes emergentes.
Para a cena cultural italiana e para Brizzi, fica a gratidão e a percepção de que, sem esses produtores-guardião, o cinema perde parte de sua poética de risco — e nós, espectadores, perdemos o encanto daquele abraço que transforma um projeto tímido em obra coletiva.

