Gino Paoli e a força da 'escola genovesa' que reinventou a música italiana
Como Gino Paoli e a 'escola genovesa' moldaram a música italiana: ruas, canções e herança cultural de Gênova.
RESUMO ✦
Sem tempo? A Lili IA resume para você
Gino Paoli e a força da 'escola genovesa' que reinventou a música italiana
Por Chiara Lombardi — Em Gênova as ruas guardam memórias sonoras: na Via del Campo há uma placa em homenagem a Fabrizio De André, que dedicou àquela rua uma canção; o bairro marítimo de Boccadasse e os caruggi inspiraram, respectivamente, "La gatta" e "Il cielo in una stanza", músicas assinadas por Gino Paoli. Essas referências não são apenas curiosidades locais, são pistas de um roteiro cultural que revela por que a chamada escola genovesa é um verdadeiro espelho do nosso tempo.
Nos anos 1960, entre cafés e bares do bairro da Foce, nasceu um agrupamento de cantores e compositores que mudou o curso da canção italiana. Nomes como Umberto Bindi, Fabrizio De André, Bruno Lauzi, Gino Paoli, Giorgio Calabrese e Luigi Tenco compuseram um repertório que nasceu do urbano, do íntimo e do social, com letras que exploravam sentimentos, ideologias e política, sempre com um linguajar realista e potente.
Houve também behind-the-scenes fundamentais: os arranjadores genoveses Augusto Martelli e os irmãos Gian Franco e Gian Piero Reverberi foram chaves na promoção e no desenvolvimento desses artistas. O cenário onde se encontravam — a antiga laticínios e bar Igea, na Foce — virou lendário: o lugar dos “Quatro amigos”, citado até por Paoli em referências públicas, onde “entre um copo de uísque e um café” se moldava um estilo refinado, e às vezes melancólico, que combinava erudição musical e popularidade.
Essa escola não economizou em regionalidade: Lauzi e De André escreveram várias canções inspiradas em Gênova e, por vezes, em dialeto. Músicas como "La città vecchia", "Via del Campo" e "Crêuza de mä", além do álbum Genova per noi de Bruno Lauzi, são testemunhos sonoros de uma cidade que se faz canção.
O eco da escola genovesa atravessou décadas. Aos nomes dos anos 60 somaram-se artistas como Ivano Fossati, Francesco Baccini, Cristiano De André, New Trolls e Matia Bazar. Mais recentemente, a cena rap e o urban pop trouxe novas vozes nascidas nesses bairros: Tedua, Bresh, Olly e Alfa — este último, Andrea De Filippi — que reconhecem em Paoli uma referência moral e artística.
Na esteira das homenagens, vozes da nova geração lembraram Paoli com reverência: Alfa afirmou que, para quem vem de Gênova, Gino Paoli sempre representou “um ponto de referência, uma voz que nos acompanhou crescendo, um exemplo raro de autenticidade e longevidade”. O rapper Bresh compartilhou fotos e escreveu: “Que sorte ter te conhecido, foi um dia memorável. Condolências à família, ciao Gino”. Sayf, vice-campeão do Festival de Sanremo 2026, postou uma homenagem com um coração e a música "Senza fine"; Olly, vencedor de Sanremo 2025, publicou notas de "Il cielo in una stanza" em preto e branco.
Mais que um movimento musical, a escola genovesa é um dispositivo de memória coletiva — um roteiro onde cidade, língua e identidade se encontram. Ao revisitar essas ruas e canções, percebemos não apenas melodias bem construídas, mas um arquivo emocional que atua como um roteiro oculto da sociedade: cada verso é um enquadramento, cada refrão, um reflexo do que fomos e do que continuamos a ser.
Em tempos em que o pop e as tendências virais aceleram a cultura, a lição de Gênova permanece: o verdadeiro impacto artístico nasce quando a técnica encontra a autenticidade, e quando a cidade inteira se transforma em partitura.