Quando Gino Paoli foi ao Parlamento: eleito pelo PCI, mas sempre um anarquista do pensamento
Gino Paoli no Parlamento: eleito pelo PCI em 1987, manteve o anarquismo do pensamento e levou a cultura ao centro do palco político.
RESUMO ✦
Sem tempo? A Lili IA resume para você
Quando Gino Paoli foi ao Parlamento: eleito pelo PCI, mas sempre um anarquista do pensamento
Entrou no Parlamento como independente, invocando a memória do avô antifascista. Em 1987 Gino Paoli foi eleito nas listas do PCI e, como convinha, alinhou‑se ao grupo da Sinistra Indipendente. A escolha, no entanto, não apagava sua autoidentificação: Paoli gostava de chamar‑se, sem ironia, de anarquista — no sentido de um pensador livre, difícil de ser aprisionado em rótulos partidários.
Havia nele um gosto pela história que o rodeava, pelas dinâmicas das discussões e das decisões, e uma sensibilidade para o que o autor italiano Domenico Rea chamou, em outra cena, de a espera do “Deserto dos Tártaros” — aquela sensação quase teatral das longas jornadas entre o plenário e o Transatlântico, em vigília por algo que talvez nunca chegasse. Era uma época em que os bancos do Parlamento hospedavam figuras que representavam verdadeiras excelências culturais: no grupo da Sinistra Indipendente, na décima legislatura, tomaram lugar nomes como Antonio Giolitti, Vittorio Foa, Stefano Rodotà, Natalia Ginzburg, Giorgio Strehler, Antonio Cederna, Luigi Pintor, Claudio Napoleoni, Adriano Ossicini e Franca Basaglia. Paoli partilhava com eles a sensação de viver um momento de mudança, também à esquerda.
O cantor era, antes de tudo, um intérprete da interioridade — das emoções, das relações humanas — e possuía uma relutância antiga em transformar sua obra num panfleto político. Quando a canção engajada explodiu e quase se tornou cota obrigatória, Paoli retirou‑se do palco: fechou ciclos, abriu um cassino em Levanto e parecia querer ficar longe do barulho. Mas a narrativa cultural tem suas voltas cinematográficas. Foi Gianni Borgna, que lhe dedicara um livro com capas de Pablo Echaurren, quem o resgatou: persuadiu‑o a voltar. Em 1975, numa noite do Festival da Juventude no Pincio, Paoli descobriu que uma plateia de jovens — tão diferente da que ele havia deixado no pós‑Sessantotto — entoava com liberdade "Sapore di sale" e outras canções suas. Era o encontro entre gerações, o refrão que atravessava memórias.
O traço familiar também explicava parte de sua postura pública. Paoli gostava de falar do avô — também chamado Gino — um homem que, em Piombino, havia sido um “socialista ante litteram”, alguém que, apesar de analfabeto até os cinquenta anos, declamava a Divina Commedia de cor. O avô trabalhara nos altos‑fornos como operário e era temido pelos fascistas: uma figura de presença física e moral que deixou impressa a marca do antifascismo na família. Essa herança ajudou a compor o perfil de um artista que, embora não fosse um militante de gabinete, tinha uma bússola ética clara.
Olhar hoje para a passagem de Gino Paoli pelo Parlamento é ler um capítulo em que cultura e política se encontram não como mera decoração, mas como espelho do tempo. Paoli não transformou sua canção em panfleto — preferiu a sutileza do tom, a força do gesto íntimo — e, ainda assim, escolheu sentar‑se entre aqueles que modelavam o país. Há aqui um pequeno roteiro oculto: a política chama, a arte responde, e o artista, quando entra na esfera pública, leva consigo memórias, tensões e a possibilidade de reframe de uma realidade coletiva.
Em resumo, a presença de Paoli no Parlamento simboliza uma paisagem em que a reputação cultural converteu‑se em capital cívico. Não foi um caso de conversão ideológica simples; foi a entrada de um homem do canto no palco da decisão, com um legado familiar que lembrava sempre a urgência do antifascismo e uma vocação para a liberdade de pensamento — o verdadeiro sentido de seu autoproclamado anarquismo.