Hotline de Maurizio Cattelan transforma confessionário em linha telefônica pública

Maurizio Cattelan lança Hotline: linha telefônica para confissões públicas e edição limitada de La Nona Ora (666 cópias). Saiba como participar.

Hotline de Maurizio Cattelan transforma confessionário em linha telefônica pública

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Hotline de Maurizio Cattelan transforma confessionário em linha telefônica pública

Por Chiara Lombardi — Em uma sobreposição elegante entre ritual religioso e performance contemporânea, o artista Maurizio Cattelan convida o público a colocar o telefone no lugar do banco do confessor. O projeto Hotline, ativo de 2 a 22 de abril, inaugura uma espécie de confessionário moderno: uma linha telefônica gratuita dedicada para quem desejar confessar e aliviar a própria consciência.

O serviço funciona com modalidades distintas conforme o território: há um número gratuito — 0800 060 8212 — destinado ao Reino Unido; nos Estados Unidos a chamada também é gratuita; e, para quem está em outras regiões, a alternativa é o envio de mensagens via WhatsApp. As falas recebidas serão ouvidas pelo próprio Maurizio Cattelan, que selecionará algumas confissões consideradas mais significativas para responder diretamente.

As interações não ficam apenas na esfera privada: Cattelan prevê convidar participantes selecionados para um evento em streaming, marcado para 23 de abril, quando algumas vozes escolhidas terão retorno público. O gesto — transformar a intimidade da confissão em espetáculo partilhado — funciona como um espelho do nosso tempo: onde a privacidade se converte em narrativa coletiva e a culpa, em material estético e social.

Em sintonia com o período pascal e com uma data carregada de memória — o 21º aniversário da morte de João Paulo II —, o artista lançou também uma tiragem limitada de sua obra mais controversa, La Nona Ora. Serão comercializados 666 exemplares, número escolhido propositalmente, a um preço de €2.310 cada, por meio da plataforma Avant Arte. A venda não ocorrerá por transação direta: os interessados se inscrevem a partir de 2 de abril e a aquisição dos exemplares será definida por sorteio.

Os resultados do sorteio serão comunicados em 23 de abril, mesmo dia do streaming, e a entrega das peças está prevista para novembro de 2026. Trata-se de um lançamento que mistura mercado, rito e ironia — elementos constantes na obra de Cattelan — e que reabre perguntas sobre o valor simbólico de uma obra quando ela é redesenhada como objeto de circulação massificada.

Enquanto a Hotline convida desconhecidos a desabafar, o ato do artista em ouvir e selecionar confissões coloca o público diante de um roteiro oculto: quem é autorizado a falar? Quem é ouvido? E o que se transforma quando a culpa atravessa o canal do telefone e entra no espaço público? Essas questões tornam o projeto não só uma peça performática, mas um reframe da realidade — uma semiótica do viral que reflete nossa era hiperconectada.

Como observadora cultural, percebo nessa iniciativa a vontade de articular memória, ritual e mercado em um único gesto. Cattelan transforma um confessionário em linha telefônica e, ao fazê-lo, nos obriga a reconhecer que confessionar hoje pode ser tanto um alívio íntimo quanto uma condição para participar de um evento coletivo: o seu próprio eco cultural.

Para participar ou acompanhar, verifique as modalidades por país e a disponibilidade do número. A experiência promete ser menos sobre penitência e mais sobre o que a voz coletiva revela do roteiro social que habitamos.