Ierogamia da arte: o enlace entre vida e morte que exorciza o horror vacui
Como a ierogamia artística entre vida e morte transforma obras em antídotos contra o horror vacui e conecta passado, presente e futuro.
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Ierogamia da arte: o enlace entre vida e morte que exorciza o horror vacui
22 de abril de 2026 — por Chiara Lombardi
Se eu tivesse que traçar um diagrama da essência da arte, desenharia uma elipse cujos dois focos são, de um lado, uma alegoria da vida e, do outro, um símbolo da morte. A arte orbita esses polos, balanço íntimo que conecta o mistério telúrico do Além com a realidade fenomênica e efêmera. Nesse movimento, muitas vezes a obra se torna tanto um hino ontológico quanto um ritual para exorcizar o horror vacui.
Falar de ierogamia — essa noção antiga de casamento sagrado entre opostos — ajuda a entender como a criação artística se situa no limiar entre eros e thanatos. Se nos tornássemos transumanos e a tragédia de nossa finitude cessasse, é provável que tanto as religiões quanto a arte perdessem parte de seu sentido. A tensão entre o nascimento e o fim alimenta o impulso criador, tal como a luz e a sombra compõem um filme: sem contraste, a narrativa se torna plana.
O artista dialoga com contemporâneos, extrai estímulos das relações sociais e recolhe seiva nas raízes da civilização a que pertence, para que do tronco de sua mente brote uma nova obra. Mas mantém também uma conversa com os posteros — ideias poderosas atravessam abismos de tempo como ondas colossais e alcançam um futuro remoto, reescrevendo o roteiro oculto da sociedade.
As nuvens pictóricas de Alberto Bertoldi, por exemplo, revelam essa intensidade: entre poesia e filosofia, suas composições transformam o céu em sintaxe estética e instauram um diálogo transfigurativo. Ao mesmo tempo, uma tela de Picasso como Le Cocu magnifique (1968), presente na mostra da Deodato Arte, confirma que o gesto artístico é simultaneamente íntimo e arqueológico — instrumento que desenterra memórias e as projeta sobre o presente.
Os artistas falecidos, como cientistas ou filósofos, continuam a nos interrogar. Através de livros, quadros, esculturas, música e arquitetura, tecemos conversas talvez mais íntimas do que aquelas que mantemos com muitas pessoas vivas. As flechas disparadas por suas ideias, ainda que partam de longe, acertam o alvo no âmago. A arte é um veículo de sensibilidade e sabedoria que cria um cordão umbilical metafísico entre o mundo dos vivos e o reino dos mortos.
Uma obra, por mais inerte que pareça — aprisionada na pedra, contida na tela, encadernada em uma página —, reanima-se quando um espírito receptivo se aproxima. Ela pulsa, irradia, reacende circuitos adormecidos e oferta a água fresca do gênio a quem dela deseja beber. A matéria inanimada, fecundada pelas Musas, atravessa o plano físico e, às vezes, consegue engravidar a esfera espiritual.
O capolavoro (ou obra-prima) assemelha-se a uma semente: muitas vezes dorme silenciosa, ao gelo, no escuro subterrâneo. Pode ficar séculos sepultada sob camadas arqueológicas e, então, ser redescoberta — brotando de uma parede arruinada, das profundezas do mar ou de abrigos rochosos, como se viesse à luz pela primeira vez. Essa ressurreição é a própria prova da potência comunicativa da arte, seu papel como reframe da realidade e como espelho do nosso tempo.
Em última análise, a ierogamia entre vida e morte é um rito contínuo que a arte encena para nos proteger do vazio. Ela nos lembra que o significado é construído na interseção de opostos e que cada obra carrega a promessa de reterritorializar a memória coletiva. Ver uma obra é, então, participar de um casamento secreto entre presente e eternidade — um enlace que não elimina o fim, mas dá a ele forma e sentido.
Chiara Lombardi — Espresso Italia