John Travolta estreia na direção com a filha Ella Bleu em filme sobre seu amor pela aviação

John Travolta estreia como diretor com Ella Bleu em filme sobre sua paixão pela aviação; estreia na Apple TV e recebeu Palma d’Oro honorária em Cannes.

John Travolta estreia na direção com a filha Ella Bleu em filme sobre seu amor pela aviação

RESUMO ✦

Sem tempo? A Lili IA resume para você

Gerando resumo com IA...

John Travolta estreia na direção com a filha Ella Bleu em filme sobre seu amor pela aviação

Por Chiara Lombardi — Em Cannes, o cinema respirou como uma cabine de comando: aplausos, luzes e o perfume discreto de nostalgia. Aos 72 anos, John Travolta aterrissou no tapete vermelho com seu tradicional boina branca, olhos azuis radiantes e um gesto expansivo, como quem abre as asas. A surpresa do festival veio em forma de Palma d’Oro honorária, entregue em noite de ovacionado reconhecimento. "Não me esperava, é uma serata speciale", disse ele, com a mão no peito, antes de se sentar ao lado de Alberto de Mônaco.

Mas a verdadeira aterrissagem artística de Travolta aconteceu atrás das câmeras. Em estreia de direção, ele apresenta Propeller One-Way Night Coach (também referenciado como Volo notturno per Los Angeles), um filme profundamente pessoal sobre sua paixão pela aviação. O curta-metragem — escrito, dirigido, produzido e narrado por ele — será lançado a partir do dia 29 na Apple TV.

Como em um close intimista, o filme descreve o avião da TWA com a mesma reverência de um soneto: as luzes do túnel do portão, os desenhos na fuselagem, o zumbido das hélices e a escadaria tratada como um tapete vermelho de Cannes. Ao olhar pelo oval do fusel, Travolta vê um céu pontilhado de estrelas; ao som de Gershwin, sua madeleine — essas memórias involuntárias que nos lançam ao passado — ganha contornos quase mitológicos, um reframing da infância.

O roteiro adapta um livrinho homônimo de 42 páginas, escrito pelo próprio Travolta em 1997 e inspirado em suas recordações: uma primeira viagem decisiva em 22 de dezembro de 1962, aos oito anos, ao lado da mãe. Um itinerário que se estendia por vários dias, com seis escalas até chegar a Los Angeles — uma travessia que cheirava a esperança e ao mito de Hollywood. No filme, essa iniciação é tratada com a ternura de um romance de formação; a jovem Ella Bleu, sua segunda filha, assume o papel de comissária de bordo, acrescentando uma camada íntima e familiar ao projeto.

Travolta revivencia detalhes que hoje soam anacrônicos: fumar a bordo, a primeira classe situada na parte traseira, a liberdade de visitar a cabine de pilotagem. Ele conta com afeto a cena em que a mãe flerta com um passageiro — gestos simples que desembocaram nos seus sonhos de ator e piloto. "Voar foi meu primeiro amor", declarou, lembrando que, ainda menino no New Jersey, via o aeroporto LaGuardia da janela do quarto e imaginava as aeronaves como um grande espetáculo noturno.

O filme tem cerca de uma hora e mantém a leveza de sua origem: um texto curto transformado em um passeio sensorial. Entre memórias e cinema, Travolta constrói mais do que um relato biográfico: oferece um lembrete visual sobre um tempo em que havia um otimismo coletivo voltado ao futuro — uma proposta quase política sobre o que poderíamos recuperar.

Não faltam anedotas que reforçam sua persona de astro-piloto: em Roma, segundo relatos, chegou a recusar cachê em troca de encher o tanque de querosene e pousou com seu jato particular. É uma ironia elegante — o artista que demanda combustível para seguir voando, literal e simbolicamente.

Em termos culturais, a iniciativa de Travolta funciona como um espelho do nosso tempo: o filme é ao mesmo tempo autobiografia e ficção sonora, uma pequena ode à aventura e ao gesto humano de mirar o horizonte. Se o cinema moderno busca, cada vez mais, narrativas que reconstroem identidades e memórias, aqui vemos o roteiro oculto de uma vida traduzido em imagens e sons. Não é apenas a história de um menino que sonhava com aviões; é o eco cultural de uma era que sonhava alto.