Morre Marcello Miranda, o icônico Rocco Cane do universo de Ciprì e Maresco

Morre Marcello Miranda, o Rocco Cane de Ciprì e Maresco; ator de Cinico TV e filmes cult, falece em Palermo aos 67 anos.

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Morre Marcello Miranda, o icônico Rocco Cane do universo de Ciprì e Maresco

Por Chiara Lombardi — A cena perde uma de suas figuras mais contundentes: morreu em Palermo, aos 67 anos, Marcello Miranda, eternizado como Rocco Cane na obra transgressora de Daniele Ciprì e Franco Maresco. Miranda encarnou o personagem em todos os episódios de Cinico TV, da estreia em 1989 até o fim dos anos 1990, imprimindo ao anti-herói uma fisionomia que atravessou além da tela, tornando-se um arquétipo da cultura popular italiana.

O percurso do ator estava ligado às terras e aos labirintos de Palermo, onde também se deu seu falecimento. Além de Cinico TV, Miranda participou de filmes marcantes da dupla Ciprì e Maresco: foi Paletta em Lo zio di Brooklyn e em Totò che visse due volte, e figurou ainda na versão incompleta e já inédita de Il ritorno di Cagliostro. Sua colaboração com os diretores estendeu-se até as séries televisivas I migliori nani della nostra vita e Ai confini della pietà, exibidas na La7 entre 2006 e 2007.

Franco Maresco, visivelmente abalado, recordou a trajetória afetiva e artística que o ligava a Miranda: «Ele e Francesco Tirone foram, de fato, os primeiros atores de Cinico TV. Eu os conhecia desde jovens e os apresentei a Daniele. Eu e Marcello crescemos nos mesmos bairros populares de Palermo.» A lembrança pública, porém, traduziu o deslinde simbólico: «Ontem à noite alguém me perguntou ‘mas realmente morreu Rocco Cane?’; não perguntou se era Marcello Miranda. Para muitos de sua geração, Marcello era o homem de cueca perenemente assanhado, a paródia subproletária do Rocco Siffredi dos anos 80 — e, simultaneamente, o espelho de uma Itália já em vias de degradação, do horror que vemos hoje. Sua morte é para mim um golpe muito duro.»

É nessa tensão — entre personagem e intérprete, comédia e denúncia — que o legado de Miranda ressoa. Rocco Cane não foi apenas um papel cômico ou grotesco: foi um símbolo narrativo, uma peça do mosaico em que o cinema de Ciprì e Maresco traduziu a semiótica do urbanismo, da marginalidade e do declínio social. Miranda habitou um «cenário de transformação», onde a grotescência é também um espelho do nosso tempo.

Ao olhar retrospectivo, vemos a força de um ator cuja presença física e vocal tornou-se roteiro oculto da sociedade. Sua morte recoloca em pauta a importância do cinema periférico italiano — aquele que, mais do que entreter, inquieta e interroga. Que se lembre Marcello Miranda por sua coragem de dar corpo a um personagem que desafiava convenções, e que Rocco Cane continue a ecoar nas leituras críticas do nosso presente.

9 de abril de 2026 — Espresso Italia